Cobras, gatos, netos

por Michel Laub

Francisco Alvim em O metro nenhum (Companhia das Letras, 89 págs.):

COBRA – a que continua viva/ depois de morta/ é a que pica mais forte// Por isso é mister/ esconder o pau/ (e não mostrá-lo/ como pensa o vulgo)// Assim nunca saberá/ a cobra/ de onde baixa o porrete/ eternidade afora

PIORA – Adotou um gatinho/ que ia visitar toda semana/ no asilo/ de gatinhos velhinhos/ Quis procurar o dono do cavalo/ cabisbaixo/ fincado nas quatro patas/ que via todo dia na beira/ do trilho/ quando passava no/ trem/ Uma vez quase desceu de sua sala/ para falar com o mendigo da praça/ dono de um cachorro/ mais estropiado do que o/ admissível/ cujo sofrimento era o dele/ cachorro/ e o dela

HISTÓRIAS DE NETO – São muito chatas/ Mas esta vale a pena/ A babá/ mocinha tinha treze catorze anos/ resistiu quanto pôde/ mas acabou que/ confessou tudo/ Só que o tudo era outra coisa/ muito pouco/ quase nada/ cinco reais um lençol um quilo de arroz/ o Cartier, negou/ Ele três aninhos só ouvindo/ e/ de repente:/ (nunca vi criança tão inteligente)/ Mas que perigo/ podiam ter roubado/ a minha chupeta