Um casamento: preparativos, cerimônia e festa

por Michel Laub

Trechos de A amiga genial, de Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 331 págs., tradução de Maurício Santana Dias), que se passa em Nápoles, no pós-guerra:

“Jamais a tinha visto nua, me envergonhei. Hoje posso dizer que foi a vergonha de (…) ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes que Stephano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a (…). Imaginei-a (…) envolvida pelo marido, na cama da casa nova (…), e subitamente me pareceu que o único remédio contra a dor que eu estava sentindo, que sentiria, era achar um canto bem afastado para que Antonio fizesse em mim, naquela mesma hora, o mesmo e idêntico ato (…).

Na cozinha, esperando-nos com impaciência, prontos há um bom tempo, estavam Fernando e Nunzia. Nunca os tinha visto tão arrumados. Naquela época os pais dela, os meus, todos os pais me pareciam velhos. Eu não fazia grande distinção entre eles e os avós maternos, os paternos, criaturas que a meus olhos tinham todas uma espécie de vida fria, uma existência sem nada em comum com a minha, com a de Lila (…). As pessoas realmente devoradas pelo calor dos sentimentos, pela ânsia dos pensamentos, éramos nós. Somente agora, enquanto escrevo, me dou conta de que, naquela época, Fernando não devia ter mais de quarenta e cinco anos (…). A mesma coisa valia para os meus pais, cuja idade posso ser mais precisa: meu pai tinha trinta e nove anos, minha mãe, trinta e cinco. Olhei-os demoradamente naquele dia, na igreja. Senti com irritação que meu sucesso nos estudos não os consolava nem um pouco, ao contrário, sentiam – especialmente minha mãe – que se tratava de uma inútil perda de tempo (…). Minha mãe (…) me olhou para que eu sentisse o peso de estar ali, de óculos, distante do centro, enquanto minha amiga malvada conquistara um marido de posses, uma atividade econômica para a família, uma casa toda sua (…) com uma banheira, geladeira, televisão e telefone (…).

Era evidente que todos os que tinham recebido o convite não quiseram faltar ao casamento, e mais, se apresentaram vestidos com muita elegância, e isso significava (…) que não poucos (…) precisaram pedir dinheiro emprestado. Então olhei Silvio Solara, grande, em trajes escuros, de pé ao lado do noivo, muito ouro cintilante nos pulsos. Olhei sua esposa, Manuela, vestida de rosa, carregada de jóias, postada ao lado da noiva. O dinheiro de toda aquela ostentação vinha dali (…). O casamento de Lila era de fato um negócio não só para o florista, não só para o fotógrafo, mas sobretudo para aquele casal, que entre outras coisas também tinha fornecido os pratos da recepção, do antepasto ao bolo (…).

Foi durante o percurso que (…) comecei a me sentir claramente uma estranha, infeliz por meu próprio estranhamento. Eu tinha crescido com aqueles rapazes, considerava seu comportamento normal, a língua violenta deles era a minha. Mas seguia cotidianamente, já há seis anos, um percurso que eles ignoravam por completo, e que eu, ao contrário, trilhava de modo tão brilhante que chegava a ser a melhor. Com eles eu não podia usar nada daquilo que aprendia diariamente, tinha que me conter, de alguma maneira me autodegradar. O que eu era na escola, ali era obrigada a colocá-lo entre parêntesis ou a usá-lo à traição, para intimidá-los. Me perguntei o que estava fazendo naquele carro. Ali estavam meus amigos, certo, ali estava meu namorado, estávamos indo à festa de casamento de Lila. Mas justamente aquela festa ratificava que Lila, a única pessoa que eu sentia ainda necessária malgrado nossas vidas divergentes, não nos pertencia mais, e, com sua retirada, toda mediação entre mim e aqueles jovens, aquele carro correndo por aquelas ruas, se exaurira (…).

Havia um rumor de descontentamento no salão. Os convidados mais ressentidos logo começaram a notar os detalhes que não iam bem. O vinho não era da mesma qualidade para todas as mesas. Alguns já estavam no primeiro prato, enquanto outros não tinham sido sequer servidos do antepasto. Já havia quem dissesse em alto e bom som que, onde estavam sentados os parentes e amigos do noivo, o serviço era melhor do que onde se sentavam os parentes e amigos da noiva (…).

Dançavam jovens, adultos, crianças. Mas eu sentia o que realmente havia por trás da aparência de festa. As caras tortas dos parentes da noiva, especialmente das mulheres (…). Tinham se sacrificado pelo presente, pela roupa que estavam vestindo, tinham se endividado, e agora eram tratados como pedintes, com vinho ruim e atrasos intoleráveis no serviço? (…) Iriam conter a raiva por amor a Lila, mas no final da recepção (…) estouraria uma briga monumental, que originaria ódios de meses, de anos, despeitos e insultos que envolveriam maridos, filhos, todos com obrigação de mostrar a mães e irmãs e avós que sabiam bancar os machões. Eu os conhecia. Via os olhares ferozes dos rapazes voltados para o cantor, para os músicos que olhavam suas namoradas de modo deselegante, ou se dirigiam a elas com frasezinhas ambíguas. Via como Enzo e Carmela se falavam enquanto dançavam, via também Pasquale e Ada sentados à mesa: era evidente que, terminada a festa, eles ficariam juntos, mais tarde noivariam e com toda a probabilidade daqui a um ano, daqui a dez, estariam casados. Via Rino e Pinuccia. No caso deles tudo seria mais rápido: se a fábrica de calçados Cerullo realmente progredisse, no máximo daqui a um ano teriam uma festa de núpcias não menos luxuosa que aquela. Dançavam, se olhavam nos olhos, se apertavam com força. Amor e interesse. Charcutaria mais sapataria. Edifícios velhos mais edifícios novos. Eu era como eles? Ainda era?”

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