O radical

por Michel Laub

Trecho de abertura do perfil de Roberto Alvim que escrevi para a revista Piauí de novembro (Íntegra da matéria aqui, para assinantes):

Numa segunda feira de abril último, na saída do espetáculo de encerramento da temporada de Tríptico Samuel Beckett no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, entrei na van que transporta os espectadores do calçadão onde fica o teatro até um ponto menos deserto, onde é possível pegar um táxi. A temporada havia sido um sucesso, enchendo os 125 lugares do CCBB durante três   meses e reunindo de estudantes, artistas e plateias intelectualizadas a, bem, os meus companheiros de viagem. Um deles, um senhor com roupas, penteado e linguagem do típico frequentador do chamado teatrão – outro nome para espetáculos de tom digestivo e consumo rápido –, perguntou a uma senhora igualmente estereotipada o que ela havia achado da peça, baseada nas três obras derradeiras do escritor irlandês. “Bárbara”, ela respondeu. “Pena que eu não entendi nada.”

Um mês e meio depois, o diretor de Tríptico Beckett, Roberto Alvim, promove uma reunião com a equipe que trabalhará em seu novo projeto: a encenação de Terra de Ninguém, do inglês e prêmio Nobel Harold Pinter (1930–2008). O elenco é formado por Luis Melo, Edwin Luisi, Caco Ciocler e Pedro Henrique Moutinho. Enredo: quatro homens – dois de 60, um de 40 e um de 30 – se reúnem num fim de noite. Pouco se sabe sobre eles. São amigos? Amantes? Alguém fala a verdade ou é tudo um jogo cruel de aparências? Como é comum em Pinter, percebemos que acontece algo de errado, mas não identificamos o que seja. Um dos temas possíveis é a morte, aqui tratada de modo alusivo e sob diferentes pontos de vista – o da juventude, o da velhice, o de quem fez sucesso social e material, o de quem fracassou. Tudo é incerto no palco, até os nomes e as identidades dos personagens, que mudam e confundem o espectador. John Gielgud, o ator inglês lendário, que nos anos 70 integrou a primeira montagem da peça, declarou à época: “As pessoas ficam desesperadas para saber do que trata o texto. Acho que nem eu sei.” Já Pinter dizia que um personagem do qual não se conhece “a experiência passada, o comportamento presente ou as aspirações” é tão legítimo quanto um que, “alarmantemente”, oferece isso tudo.

Para Roberto Alvim, juízos do gênero são inevitáveis. “Toda obra de arte é enigma, e o enigma tem infinitas respostas”, ele diz, com sua característica alternância de ênfase, jargão, coloquialidade e às vezes ironia. “Isto é diferente de ser hermético, impenetrável, porque aí você desiste da obra. Um artista tem a obrigação de criar signos que induzam as pessoas a procurar seus múltiplos significados.” Na apresentação da equipe, após café, pães de queijo e uma rápida leitura em voz alta da peça, o diretor ouviu opiniões sobre o texto. Edwin Luisi contou que mesmo depois de quatro leituras continuava “confuso”. Houve um debate sobre o tom (pomposo ou poético) de algumas palavras. Sobre as pausas (dramáticas ou cômicas) entre elas. Sobre o tempo da ação (o que é presente e o que é passado) e o caráter dos homens em cena. A seguir, Alvim tomou a palavra: discorreu sobre o modernismo, a natureza do silêncio no autor inglês, a correspondência que trocou com ele, psicologia, política, literatura, física, história da arte e a impossibilidade de relatarmos com precisão a experiência. Anunciou que a abordagem do espetáculo seria “sensorial, não intelectual”. A intenção não era fazer “narrativa fechada”, e sim criar “instabilidade”, com o espectador convidado a “entrar num trem fantasma”.