Guerra, homens e animais

por Michel Laub

Trechos de Guerra aérea e literatura, de W.G. Sebald (Companhia das Letras, 131 páginas), livro que trata do modo como escritores alemães descreveram os bombardeios aliados no fim da Segunda Guerra:

“Não se espera que uma colônia de insetos fique paralisada pelo luto diante da destruição de uma colônia vizinha. Da natureza humana, no entanto, espera-se certa dose de empatia. Nesses termos, a manutenção da ordem pequeno-burguesa de seguir tomando café nas sacadas de Hamburgo, no final de julho de 1943, tem algo de assustador, absurdo e escandaloso, mais ou menos como os bichos de Grandville, que, vestidos como seres humanos e munidos de talheres, se alimentam de um companheiro da mesma espécie. Por outro lado, a rotina cotidiana que desconsidera as rupturas catastróficas – desde assar um bolo para compor a mesa do café até a persistência dos ritos culturais mais elevados – é o meio mais eficiente e natural de preservar o chamado bom senso. Nesse contexto se insere também o papel desempenhado pela música na evolução e na derrocada do Reich alemão. Sempre que se queira esconjurar a seriedade do momento, convocava-se a grande orquestra, e o regime se locupletava do gesto afirmativo do final sinfônico. Nada mudou quando os tapetes de bombas foram estendidos sobre as cidades alemãs. Alexandre Kluge se recorda da transmissão de Aida pela Rádio Roma na noite anterior ao ataque a Halberstadt. ‘Estamos sentados no quarto do meu pai diante do aparelho de madeira marrom com visor iluminado que indica as emissoras estrangeiras. E ouvimos a música secreta que vem de longe, distorcida, sobreposta ao relato de algo sério que nosso pai resume para nós em alemão. À uma hora os amantes são estrangulados na cripta’. Um sobrevivente conta que, às vésperas do ataque arrasador a Darmstadt, ele ‘ouvira no rádio alguns cantos do mundo sensual do rococó na música encantadora de Strauss.’”

“Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico [de Berlim]. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas.’ (…) Agora encontram-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada dos visitantes (…). Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens (…) rompem com os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror (…) também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso (…). As descrições (…), que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’.”