Michel Laub

Categoria: Listas

Fim de semana

Uma exposição – Histórias da Sexualidade, MASP.

Uma montagem – O Rio, Sesc Consolação.

Um filme – O Destino de uma Nação, Joe Wright.

Um documentário – One of Us, Heidi Ewing e Rachel Grady.

Um romance – Pretérito Imperfeito, Bernardo Kucinski (Companhia das Letras, 152 págs.).

Anúncios

Fim de semana

Um filme – The Meyerowitz Stories, Noah Baumbach.

Um documentário meio egóico – Jim & Andy: The Great Beyond, Chris Smith.

Um ensaio de 1975 – Susan Sontag sobre Leni Riefenstahl (aqui).

Uma novela – Glaxo, Hernán Ronsino (Ed 34, 77 págs.).

Um livro de poemas – A Orca no Avião, Sofia Mariutti (Patuá, 71 págs.).

Fim de semana

Um documentário – Joe Strummer, the future is unwritten, Julien Temple.

Um filme – Pasolini, Abel Ferrara.

Outro – Órfãos do Eldorado, Guilherme Coelho.

Uma reportagem – Megan Phelps-Roper e a deserção da Westboro Baptist Church (aqui).

Um livro – Brasil, uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling (Companhia das Letras, 792 págs.).

Fim de semana

Um filme – Mapas para as estrelas, David Cronenberg.

Uma performance de 2010 – LDC Soundsystem na chuva (aqui).

Um livro de poemas – Rabo de baleia, Alice Sant’Anna (Cosac Naify, 64 págs.).

Outro – Escuta, Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras, 134 págs.).

Uma montagem que voltou a cartaz – Comunicação a uma academia, dir. Roberto Alvim.

Resumo do circo

– Ódio: o que o grupo político rival sente. Nós, ao contrário, somos cândidos e gostamos de ouvir o contraditório.

– Golpe: está constantemente sendo promovido pelo grupo rival na mídia, no judiciário, no aparelhamento de estatais, na doutrinação de escolas e universidades.

– Classe média: todo mundo é quando fala do próprio salário, ninguém é quando discute cultura ou moral.

Publicado na Folha de S.Paulo, 27/3/2015. Íntegra aqui.

Filmes que deveriam ser feitos

– Documentário sobre o hábito da leitura. Nenhuma frase do tipo “ler é um barato” ou “ler amplia o mundo”. Entrevistados numa poltrona, de óculos e com a postura ruim. Adolescentes contam como “O lobo da estepe” tornou sua vida social mais difícil. Temas correlatos: depressão, alergia. Depoimentos de tuiteiros furiosos e professoras que moram com a mãe.

– Refilmagem de “Ela”, de Spike Jonze, em que dão um monte de mato para todo mundo capinar.

Publicado na Folha de S.Paulo, 23/5/2014. Íntegra aqui.

Tipos intelectuais, 2014

– Destaque das humanidades ou da ciência que vira um idiota quando o assunto é política.

– Crítico literário que, ditando todo tipo de regra sobre como a prosa alheia deve ser, escreve em prosa ilegível.

– Nostálgico de algo que nunca houve: respeito pela coisa pública, arte elevada que já nasce elevada, Rio de Janeiro cordial e lírico.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 14/3/2014. Íntegra aqui.

Querido Papai Noel

Em mais este Natal cristão, dê um presente ao meio cultural brasileiro fazendo com que:

– A disciplina de interpretação de texto se torne diária em todas as escolas, de preferência em aulas longas e sem direito a ir ao banheiro.

– Volte a ser possível ser contestado sem acusar o contestador de baixar o nível da discussão.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 6/12/2013. Íntegra aqui.

Palavras que perderam o sentido

– “Suposto”: adotada pela imprensa depois de episódios como o da Escola Base, em que seus donos foram injustamente acusados de molestar crianças. Devem achar que é um salvo-conduto contra processos em reportagens levianas, que continuam sendo publicadas sem pudor. É também uma peça recorrente de comédia, em frases como: “As imagens mostram o momento em que, diante de nove testemunhas, o suposto assassino desferiu os tiros contra a vítima”.

– “Elite” (ou “classe média”): termo que nasceu na economia, na política e na cultura e se transferiu para a moral, com elasticidade suficiente para definir apenas inimigos.

Texto publicado na Folha de S.Paulo, 27/9/2013. Íntegra aqui.

Fazer 40 anos é

– Tentar não confundir minha decadência com a decadência do mundo.

– Não achar que o pessimismo é moralmente superior ao otimismo.

– Ter uma ideia razoável do que não vai me matar. Todo o resto, incluindo o vasto reino das doenças, é uma possibilidade fascinante.

Texto publicado na Folha de S.Paulo em 26/4. Íntegra aqui.

10 livros sobre doenças

Publicado no Meia Palavra (ver post anterior):

O imperador de todos os males (Siddhartha Mukherjee) – “Biografia do câncer” e também um ensaio sobre ciência, política, economia, psicologia, história, religião, comportamento, linguagem. Ou seja, tudo.

O demônio do meio dia (Andrew Solomon) – Outro livro sobre tudo, mas partindo da depressão e com um toque mais pessoal do autor: seu medo diário de que a escola onde estudou desabasse, por exemplo, ou a sensação – de madrugada e sozinho numa estrada deserta – de que era incapaz de dirigir um carro.

A menina sem estrela (Nelson Rodrigues) – Provavelmente as melhores crônicas/memórias já escritas em português. Fala de cegueira, tuberculose, gripe espanhola, úlcera e lepra, mas nenhuma doença é tão presente quanto a obsessão.

Origem (Thomas Bernhard) – Também um livro de memórias, também com tuberculose e linguagem obsessiva. Ponto alto: trecho em que o autor repete umas cem vezes em 5 páginas a expressão “direção oposta”.

A montanha mágica (Thomas Mann) – A Europa, as guerras, deus, o tempo, o ser e o nada discutidos incessantemente num sanatório de Davos, Suíça, por pacientes com tosse e febre baixa nos fins de tarde.

A doença como metáfora (Susan Sontag) – Ensaio e depoimento pessoal sobre os simbolismos e crenças em torno dos que, na “dupla cidadania” entre “reino dos sãos” e “reino dos doentes”, passam a utilizar o “passaporte ruim”.

O olhar de Max (Louis Begley) – Romance sobre aids em que, salvo engano, a palavra aids não é usada nenhuma vez. O que combina com a sutileza deste escritor subestimado, talvez o melhor retratista dos ricos americanos do fim do Século 20.

Electroboy (Andy Behrman) – Relato sobre mania, choques elétricos, falsificação de quadros e viagens Nova York-Tóquio-Nova York só para sentir a “diferença de temperatura”.

Patrimônio (Philip Roth) – Um pai morrendo, um filho neurótico, uma orquestra ruim se apresentando num asilo e um romance pornográfico que se passa durante o Holocausto, tudo culminando na maior cena com fezes da literatura.

Febre de bola (Nick Hornby) – Sobre os jogos do Arsenal, o estádio do Arsenal, a torcida do Arsenal e um narrador que “durante quase todos os momentos da vida” se comporta como “um completo débil mental”.

10 pedidos de fim de ano para o meio literário

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

1. Escritores: parem de achar (ou pensar que os outros acham) que literatura é um sacerdócio/missão de espíritos privilegiados ou um trabalho qualquer. Sabemos que não é uma coisa e nem a outra.

2. Aproveitem e parem de explicar a própria obra usando definições externas a ela, em geral cunhadas pela crítica.

3. Críticos: aceitem que o número de autores e lançamentos os impede de acompanhar a produção contemporânea, ao menos de forma a construir teorias unificadoras num artigo de duas laudas.

4. Críticos da crítica: superar as considerações generalizantes sobre os resenhistas de jornal (que seriam superficiais), a academia (“encastelada entre seus muros”) e a internet (que teria igualado as vozes opinativas). Cada crítico é um caso, e quem tem algo a dizer continuará a ser ouvido (só não me perguntem como).

5. Editores, prefaciadores e escrevedores de orelha: sigam o conselho de Nick Hornby e não entreguem metade da trama, de preferência nem 1% dela. Também evitem dizer que a história que temos em mãos é “em última instância, sobre a própria literatura” ou “em última instância, sobre a própria linguagem”.

6. Polemistas: quando confrontados, a não ser que seus familiares e animais domésticos sejam nominalmente referidos, não acusem o adversário de estar levando para o lado pessoal. Admitam que alguém pode achar estúpido o que vocês afirmam — e, no limite, não há forma mais honesta de dizer isso do que usar a palavra “estúpido”.

7. Produtores culturais, professores, bibliotecários: deixem uma pequena parte dos debates em feiras, festivais e eventos literários para a literatura em si, em vez de dedicar 100% de suas intervenções ao problema da educação, às políticas públicas para compras de livros e ao mercado.

8. Conselho do item 7 aplicado a jornalistas: só algumas perguntas a menos, e se isso não der muito trabalho de pesquisa, sobre e-books, blogs, redes sociais e influência da internet na ficção.

9. Pessoal dos itens anteriores que é contra renúncia fiscal no âmbito da literatura: nada contra seus argumentos — até concordo com muitos deles —, mas não deixem de explicar por que a ajuda a um escritor é moralmente diversa de casos que vocês em geral defendem (ou não criticam em público). Exemplos: bolsas para estudantes de letras, principalmente se você se enquadra nessa categoria, e subsídios à imprensa, principalmente se a empresa onde você trabalha tiver feito uso deles no passado (ou, mais provável, ainda faça no presente).

10. Pessoal dos itens anteriores que também é iniciante e/ou tuiteiro: não tentem parecer mais cultos, irônicos, céticos e rigorosos do que são. Contradições e defeitos também têm seu charme, acreditem.

Sinopses animadoras de filmes da Mostra de São Paulo

Textos do Guia da Folha:

Blowfish (Taiwan, 2011) – A vida pacata de uma tímida ascensorista muda quando ela tem de arranjar um novo lar para seu peixinho de estimação.

A doença do sono (Alemanha/França/Holanda, 2011) – Pesquisador europeu viaja com a mulher para estudar a doença do sono na África. Depois de um tempo, ele não quer mais regressar com a mulher.

Elena (Rússia, 2011) – Vindos de diferentes casamentos e classes sociais, Elena e Vladimir formam um casal mais velho. Quando ele fica doente, ela precisa tomar uma decisão difícil.

Uma família a três (Alemanha, 2011) – Quando uma escritora morre em um acidente de carro, a vida de seu marido e dos dois filhos desaba.

Green (EUA, 2011) – Paranoia e inveja feminina são alguns dos sentimentos que envolvem essa história sobre um triângulo amoroso.

Malditos garotos (Suécia, 2011) – Drama conta as histórias paralelas de três famílias revelando o lado brutal do ser humano.

Margens (França, 2011) – Num dia em Paris, um homem, uma mulher e uma criança compartilham a mesma sensação de isolamento.

Ócio (Argentina, 2010) – A morte da mãe leva dois adolescentes a refletirem sobre suas vidas no apartamento do pai.

Onde a estrada encontra o sol (Cingapura/EUA, 2011) – Após ficar em coma por quatro anos em decorrência de um acidente de carro, um homem tenta se livrar de memórias traumáticas.

O ruído do gelo (França, 2010) – Comédia dramática em que um escritor alcoólatra é visitado pela encarnação do seu câncer, com quem trava discussões.

10 coisas que eu não gostaria de ler em 2011

(Mas vou, porque gosto dos meus amigos, etc. etc.):

1. Matérias cujo título ou chamadas tenham verbos no imperativo ou a palavra você.

2. Artigos que usam os termos fascismo, nazismo e stalinismo em debates sobre cigarro, brigas de rua, congresso de jornalistas.

3. Variantes da fórmula “mas ao menos ele tem o mérito de abrir o debate”.

4. Entrevistas de arquitetos defendendo que falta à arquitetura mais discussão sobre estética x função social.

5. Entrevistas de escritores se queixando da crítica, que “ou é ligeira e impressionista, como nos jornais, ou está encastelada na Academia.”

6. Elogios a publicidade.

7. Reportagens sobre pixadores e performers presos por vandalismo –  e no ano seguinte convidados para expor nos lugares onde aconteceram as prisões.

8. Críticas de cinema implicando com o off em documentários e filmes de ficção.

9. Argumentação de quem propõe trabalho gratuito ou semi-gratuito.

10. Jornalismo literário.

Filmes da mostra de SP cuja sinopse não dá muita vontade de sair de casa

(Textos do Guia da Folha):

Ano Bissexto (México, 2010) – Laura vive em profunda melancolia, até que decide acabar com a dor da existência. Arturo a ajudará nessa empreitada.

A árvore (França/Austrália, 2010) – Após a morte do marido, Dawn se vê sozinha com quatro crianças no interior da Austrália. Para completar, uma figueira ameaça as fundações de sua casa.

Um dia a menos (México, 2009) – Um casal de velhos marca o tempo pelos feriados, que é quando seus filhos chegam para visitá-los, quebrando o silêncio de seus dias ordinários.

Jean Gentil (República Dominicana/México/Alemanha, 2010) – Jean vive em Santo Domingo e busca desesperadamente encontrar seu lugar no mundo. Como outros homens, ele desaparece em meio à realidade à sua volta.

Mamma gogo (Islândia/ Noruega/ Suécia/ Alemanha/Reino Unido, 2010) – A experiência pessoal do diretor que vê a mãe desaparecer aos poucos, vítima de Alzheimer.

Beyond (Suécia/Finlândia, 2010) – Numa manhã, Leena recebe a notícia de que sua mãe está morrendo. Depois de anos, ela precisa encarar o passado para seguir em frente.

Lily sometimes (França, 2010) – História de duas irmãs que tentam lidar com a morte da mãe.

(Turquia, 2009) – Após o suicídio da mãe, dois irmãos decidem encontrar o pai, que vive sozinho numa ilha, para contar sobre o ocorrido.

Clube do suicídio (Alemanha, 2010) – Ao nascer do sol, cinco pessoas se encontram no topo de um arranha-céu para cometerem suicídio.

Filmes em cartaz cuja sinopse não dá muita vontade de sair de casa (3)

(textos dos guias da Folha e do Estadão):

Em busca de uma nova chance – A família Brewer fica abalada com a morte do jovem Brennet num acidente de carro. Seus pais demoram a aceitar a tragédia.

Plano B – Após fracassar em seus relacionamentos amorosos, Zoe decide encerrar a espera pelo grande amor e vai a uma clínica fazer inseminação artifical.

Ao sul da fronteira – O diretor confronta a política neoliberal comandada pelos EUA por meio de entrevistas com líderes sul-americanos.

Mary e Max, uma amizade diferente – A animação mostra a história de amizade entre uma menina solitária e um judeu.

Direito de amar – George é um professor de inglês que vive em Los Angeles, nos anos 60, e decide se matar após a morte repentina de seu companheiro.

Dez regras sobre humor

1. Humor involuntário quase sempre é melhor que o voluntário.

2. “Humor sutil” e “humor inteligente” são conceitos que apelam para a vaidade da plateia: ela se sente compelida a rir porque estão lhe dizendo que aquelas tiradas só são compreendidas por pessoas sutis e inteligentes.

3. Algo semelhante pode ser dito da ironia, do nonsense, da paródia: em sua vertente diluída, esses gêneros se anunciam como tal e também apelam – às vezes mendigam – por simpatia. Em sua vertente ideal, jamais piscam dando indicação da própria natureza, e assim correm o risco de soarem obscuros ou idiotas.

4. Nesse sentido, o gênero de humor mais corajoso – e portanto nobre – é a piada interna.

5. Quanto ao mais vulgar – o das piadas com início, meio e fim –, a eventual graça está na pessoa que conta, e nunca no que é contado. O problema é que contar piadas é algo raramente atraente para pessoas com verdadeiro senso de humor – vide a média da stand-up comedy –, e por consequência engraçadas.

6. O humor deveria ir sempre contra as certezas do público. Piadas de esquerda para o meio cultural, ou sátira do politicamente correto na TV aberta – trocando “anão” por “verticalmente prejudicado”, coisas assim – são um tipo de fraqueza, eventualmente de caráter.

7. Ainda sobre o item anterior: a diferença entre humor corrosivo – que sempre inclui constrangimento – e humor corrosivo demagogo – que não consegue deixar de ser didático – é aquela entre a primeira temporada do Office inglês e todas as temporadas da versão americana.

8. Alexandre Soares Silva: “Todo mundo que diz ‘se isso é humor, então eu não tenho nenhum senso de humor’ não tem nenhum senso de humor.”

9. Não há perdão para propaganda de cerveja, cerimônia de Oscar, celebridades entrevistadas por David Letterman.

10. Dostoiévski, Adorno e Coetzee  são autores engraçados.

Dez dicas para o crítico literário iniciante

(Publicado na revista Entre Livros, numa versão um pouco diferente, em 2007):

1. Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, biografia de Robert Parker, a figura mais controvertida do mundo da enologia. Uma nota alta na Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante. Uma nota baixa pode ser a falência. Ao longo dos anos notaram que ele preferia vinhos frutados, e muitas propriedades passaram a chamar especialistas para se adequar a esse gosto, mudando a composição do solo e a forma do plantio e da colheita.

2. Parker talvez seja o exemplo máximo de crítico bem sucedido hoje – rico de fato, influente de fato. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, televisão, videogames ou carnaval, estão mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinquenta (…) [Trabalha num] conjugado frio, mas abafado (…). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam cinquenta ou cem sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.

3. Ou seja, prepare-se para o tédio e a pobreza. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, e isso é quase regra para leitores mais experientes, não há o que dizer sobre ele. Sempre há: caso contrário, as contas não fecham.

4. Não se preocupe, no entanto: existem truques para encher essas páginas. Se você quer malhar um livro e não sabe como, recorra a adjetivos abstratos e por isso mesmo úteis. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos da obra. Outras alternativas: excesso de objetividade, de subjetivismo, de frieza, de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda: um romance com personagens redondos e arco narrativo completo pode ser atacado por seguir um modelo burguês de contar histórias, incompatível com o nosso século; um romance sem essas características pode ser descartado, justamente, pela incapacidade de prender o leitor.

5. Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável ou à trama incompreensível, diga que ambas simbolizam o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à estrutura caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que ela reproduz, como metáfora de forma – que, sabemos, é necessariamente conteúdo –, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.

6. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de preconceitos em público. Assim você terá mais chances de ser considerado ranheta, rancoroso e/ou pervertido.

7. O segundo caminho é se alçar a porta-voz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado – por questões sociológicas, morais ou de “voz” (raça, credo, gênero). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade ongueira em não se considerar juiz definitivo do que é certo ou errado em estética e cultura –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem caráter.

8. Independentemente da escolha, a reação geral é inevitável. Dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta. Dirão que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da academia, fazer sexo (sem amor) – ou está a soldo de alguma entidade conspiratória – grupos literários rivais, maçons, seitas, partidos políticos de direita (se você receber salário da mídia golpista) ou esquerda (se escrever numa publicação financiada pela Petrobras).

9. Em resumo: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia pelos motivos sempre errados. Pelos editores, tradutores, assessores de imprensa e outros críticos. Pela maior parte do público, mesmo os que o lêem com frequência (“Só para me irritar”).

10. Mas se, apesar de tudo, você insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato hoje segurado em cerca de US$ 1 milhão, Robert Parker era capaz de listar ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria campeão absoluto dos “testes cegos” de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para exercê-la de modo tão desanimador? Se a resposta for sim, ótima notícia. Não só para você, que ao menos achou um jeito honesto de ganhar a vida, mas para o meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje e em qualquer tempo: alguém que o ajude a enxergar, avaliar, selecionar. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

Respeito e eventualmente admiro quem faz, mas eu não faria

(a não ser por dinheiro, claro):

1. crônica sobre sexo baseada em pesquisa científica com ratos ou primatas;

2. texto ridicularizando (ou defendendo) arte contemporânea, elogio de músico ou escritor a Fidel Castro, Big Brother.

3. ataque a banda de rock ruim de que gostei muito no passado;

4. considerações sobre a barbárie da internet (“comentários anônimos e sem nenhum embasamento”);

5. crítica literária usando as palavras “estatuto”, “chave” e “burguês”.

6. microconto;

7. obituário do romance, do cinema de arte, da canção pop assoviável, do “pensamento crítico”;

8. apologia nostálgica do velho Rio de Janeiro;

9. comentário falsamente cínico sobre: meio literário, meio jornalístico, bebida/drogas (ou tudo junto, o que dá na mesma);

10. hai-cai.

Melhores do ano – livros

(lançamentos e novas edições saídas no Brasil em 2009):

Três livros de quadrinhosGênesis, Robert Crumb (Conrad, 224 págs.); Nova York, Will Eisner (Companhia das Letras, 439 págs.); Sábado dos meus amores, Marcello Quintanilha (Conrad, 64 págs.).

Três livros de não-ficção que falam de literaturaMilagres da vida, J.G.Ballard (Companhia das Letras, 248 págs.); Frenesi polissilábico, Nick Hornby (Rocco, 264 págs.); A literatura em perigo, Tsvetan Todorov (Difel, 96 págs.).

Três livros estrangeiros de ficçãoO imitador de vozes, Thomas Bernhard (Companhia das Letras, 159 págs.); Flores, Mario Bellatin (Cosacnaify, 80 págs.); Fome, de Knut Hamsun (Geração, 171 págs.).

Três livros brasileiros de ficção – ver obs feita em Melhores de 2008.

Melhores do ano – música

Cinco shows em SP – Radiohead (Chácara do Jóquei); Sonic youth (Terra); Iggy Pop (Terra); Kiko Dinucci e convidados (+ Soma); Pé na cozinha (Studio SP).

Cinco discosReplica sun machine (The shortwave set); The eternal (Sonic youth); Love 2 (Air); Together through life (Bob Dylan);  It’s blitz! (Yeah yeah yeahs).

Cinco músicas (dos discos acima) – Anti-orgasm (Sonic youth); Zero (Yeah yeah yeahs); Glitches’n’bugs (The shortwave set); Life is hard (Bob Dylan); Sing sang sung (Air).

Cinco músicas (de outros discos) French navy (Camera obscura); Beach demon (Wavves); King of the dogs (Iggy Pop); Modern Kid (Júpiter maçã); Lust for life (Girls).

Melhores do ano – exposições e teatro

(todas em SP):

Cinco exposições – Os gêmeos (FAAP); Bob Nugent (Tomie Ohtake); Jean Dubuffet (Tomie Ohtake); Virada Russa (CCBB); artistas argentinos (Choque Cultural).

Cinco exposições de fotografia – Cartier-Bresson (Sesc Pinheiros); Robert Polidori (Museu da Casa Brasileira/IMS); Onde a água encontra a terra – Carol Armstrong, Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy (MASP); Acervo em preto e branco (Pinacoteca); Otto Stupakoff (IMS).

Cinco peças de teatro (entre as não muitas que vi)Quartett, dir. Bob Wilson (SESC Pinheiros); Comunicação a uma academia, dir. Roberto Alvim (Teatro Imprensa); Hamelin, dir. André Paes Leme (CCBB); Aqui quase longe, dir. Gabriel Carmona (SESC Paulista); Brutal, dir. Mário Bortolotto (Parlapatões).

Melhores do ano – cinema

(considerando todos os gêneros):

Cinco filmes estrangeirosO lutador (Darren Aronofsky); Entre os muros da escola (Laurent Cantet); Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino); Frost/Nixon (Ron Howard); Amantes (James Gray).

Cinco filmes brasileiros Loki (Paulo Henrique Fontenelle); Jean Charles (Henrique Goldman); Simonal (Claudio Manuel, Calvito Leal e Micael Langer); Apenas o fim (Matheus Souza); Juventude (Domingos de Oliveira).

Mostra de SP: filmes cuja sinopse no jornal não dá muito ânimo para sair de casa (2)

Como unha e carne – EUA, 2009. Jimmy tem 40 anos e divide o dormitório com seu sobrinho Bob, de dez anos.

Frontier blues – Irã/Reino Unido/Itália, 2009. Na fronteira entre o Irã e o Turcomenistão, a vila Gorgan é uma região árida onde vivem quatro homens. Um deles é Alam, que mora com o pai e passa o tempo ouvindo música.

Lost persons area – Bélgica/Holanda/Hungria, 2009. Tessa, 9 anos, vaga por campos procurando algo a fazer. Seu pai busca a felicidade, e sua mãe, o papel como mulher.

Samson & Delilah – Austrália, 2009. No deserto central da Austrália, Samson e Delilah descobrem o amor e percebem como a vida pode ser cruel.

O cerco: a democracia nas malhas do neoliberalismo – Canadá, 2008. Com depoimentos de intelectuais, o filme investiga a ideologia neoliberal.

Mostra de SP: filmes cuja sinopse no jornal não dá muito ânimo para sair de casa

Alga doce – Polônia, 2009. Marta é abalada pela morte dos filhos e não sabe que tem uma doença terminal.

Seguindo em frente – Japão, 2008. Três gerações se reúnem debaixo do mesmo teto para relembrar a morte do filho mais velho numa temporada de verão.

Lágrimas de abril – Finlândia, 2009. No fim da guerra civil, os vitoriosos exterminam os derrotados, entre eles, mais de 2.000 mulheres.

Os infelizes – Bélgica, 2009. O pequeno Gunther divide a casa da avó com o pai e os tios, todos alcoólatras.

Eu matei minha mãe – Canadá, 2009. Hubert despreza sua mãe. Confuso, ele se vê tomado por amor e ódio incontroláveis.

Dois filmes de Oliver Stone sobre presidentes republicanos odiados

W – A técnica apurada de sempre, tanto nas imagens quanto na narrativa, e a mão pesada de sempre. Nem falo dos diálogos que pretendem reproduzir a história “real” – e tenho preguiça em saber se foi assim ou não, porque não faz muita diferença –, mas em detalhes claramente direcionados: George Bush dando uma cantada em sua futura mulher com a boca cheia de hambúrguer, ou sendo manipulado de forma infantil por Rumsfield e cia. Enfim, para quem acredita em teorias freudianas literais – a obsessão de W por seu pai – ou na hipótese de que alguém pode chegar à presidência dos Estados Unidos, independentemente do óbvio fracasso político e humano de sua gestão, sendo um idiota quase completo.

Nixon – A mesma obsessão freudiana – desta vez em relação a Kennedy – e a mesma mão pesada nas metáforas – um bife sangrando enquanto à mesa se discute um bombardeio, ou um cavalo que bufa de olho arregalado enquanto um pacto escuso é proposto a J. Edgar Hoover. Mas Stone manipula menos aqui, talvez por estar convencido da contradição entre grandeza e mesquinharia, geopolítica às vezes vitoriosa e constante desastre interno que marcou a gestão Nixon. Uma tragédia em tom grandiloquente, com diálogos eventualmente patéticos, resumida no momento em que Anthony Hopkins e Paul Sorvino se ajoelham para rezar por uma América que já não existia, se é que um dia existiu – aquela de Norman Rockwell, das tortas de maçã no subúrbio, dos desfiles de bombeiros carregando bandeirinhas longe do Vietnã, de Woodstock e do Watergate.

Resoluções antecipadas de ano novo (2)

1. Não ler nenhum artigo sobre lei Rouanet.

2. Não comparecer a nenhum debate sobre kindle e pirataria de livros.

3. Não ver filmes com os seguintes temas: situação dos imigrantes na França, incomunicabilidade, Cuba e Islã, classe média brasileira insensível. De segunda guerra, só se Hitler morrer num incêndio.

4. Assistir a somente um filme de Steven Soderbergh.

5. Não assistir ao filme do Lula. Se for inevitável, não comentar. Se for inevitável, não mencionar Glória Pires dizendo “tu vai te chamar Luiz Inácio”.

6. Não ir a nenhum show de sambista da FFLCH, mulher de voz suave que canta bossa nova sorrindo, letrista que faz trocadilho com termos da internet, banda com mais de 50% dos integrantes usando bigode e camisa de lenhador.

7. Não ir a nenhum show em locais sem pia. Ou com pia, mas sem água corrente.

8. Não fazer nenhuma piada sobre: poetas, release de artes plásticas, bebida em vernissage, teatro popular ou do oprimido.

9. Resistir bravamente a: twitter, Máfia Wars, séries americanas, livros sobre futebol aproveitando o gancho da copa, pinball em casa.

10. Não encerrar nenhuma lista fazendo referência à própria lista – “não fazer mais resoluções antecipadas de ano novo” – ou remetendo ao item anterior – “pinball em casa: vai ser difícil”.

(ver resoluções antecipadas 1)

Dois grandes filmes sem (quase) nenhuma mulher em cena

Soldado anônimo – Uma guerra movida a areia, máscaras de gás e Kanye West, onde a violência que nos acostumamos a ver nos cenários do Vietnã – em meio a selva, fumo e The Doors – é substituída por uma espera tediosa e igualmente absurda. O melhor filme de Sam Mendes, disparado, com uma sequência impressionante rodada no deserto – o encontro à noite, tão apocalíptico quanto as histórias do coronel Kurz em seu monólogo final, entre um jarhead e um cavalo encharcado de óleo.

Mestre dos mares – Com exceção de uma prostituta brasileira que aparece por algo como 15 segundos, o resto é o capitão Lucky Jack enquadrado por Peter Weir: seus mapas, seu violino, seus banquetes e sua obstinação maníaca em fugir e perseguir um navio da esquadra napoleônica. Ouvida no sistema de som de uma sala decente, nenhuma sonoplastia se compara à da batalha inicial, com o ranger das tábuas e o estrondo dos canhões em meio a um pesadelo de marujos correndo na neblina. E nenhuma aventura em alto mar tem cenas como as do biólogo que captura espécies novas em Galápagos, ou personagens com tanta sorte quanto Jonas – quer dizer, considerando as formas possíveis de escapar do escorbuto, do trabalho no convés e das pernas amputadas.

Três contos de David Foster Wallace, morto há um ano

Para sempre em cima – um garoto de 13 anos e o ritual de passagem mais leve e luminoso da literatura americana pós-Salinger: na fila de um trampolim, muitos metros acima do tanque de mergulho, do cheiro clorado e doce que é “uma flor de pétalas químicas”, das toalhas, do alto-falante e das mulheres de curvas e pele marrom brilhante que compõem o “sistema em movimento” da piscina, ele intui que a perda do mundo que conheceu até aqui é nada diante da promessa refrescante de sua queda.

A pessoa deprimida – mulher obcecada por um episódio de adolescência – a briga dos pais divorciados para decidir quem pagaria seu tratamento dentário – arrasta pessoas próximas numa espiral trágica e ridícula de autocomiseração. Como em várias outras de suas histórias, que frequentemente tratam da cultura americana da vitimização, Wallace prefere destilar ironia não sobre os culpados de praxe – a família, a autoridade, as corporações –, e sim sobre o lado oposto.

B.E. no 46 07-97 Nutley NJ – Num livro quase enciclopédico como Breves entrevistas com homens hediondos (Companhia das Letras, 373 págs.), um apanhado caudaloso de monólogos e relatos escritos num tom que brinca com clichês burocráticos, acadêmicos, psicológicos e metalinguísticos, nenhum trecho atinge a voltagem da fala deste paciente do que parece ser uma instituição psiquiátrica ou policial. É um monólogo dostoievskiano ao contrário: o que era a defesa racional e monstruosa do algoz, em Crime e Castigo, aqui vira uma espécie de elegia subversiva da vítima – a defesa das vantagens existenciais dos sobreviventes de campos de extermínio e das mulheres estupradas.

Dez motivos para um escritor iniciante cursar uma (boa) oficina literária

(O jornal Zero Hora me pediu e publicou esta lista numa matéria sobre o livro Oficinas Literárias: Fraude ou Negócio Sério?, de  José Hildebrando Dacanal):

1. Para quem está num nível ainda básico de texto, é a chance de queimar rapidamente etapas iniciais e obrigatórias do aprendizado.

2. Para quem nunca estudou letras nem gostou de ler crítica, é a chance de ter contato, mesmo que resumido, com as principais técnicas, discussões e correntes da história da literatura. Parece burocrático, mas evita a tentação de reinventar a roda.

3. Para quem só teve o texto avaliado pela mãe e pela irmã, é a chance de ouvir opiniões de gente com algum distanciamento e alguma afinidade com a literatura.

4. Para quem é indisciplinado ou tem dificuldade de se concentrar, é a chance de passar um tempo escrevendo regularmente, o que é sempre benéfico.

5. Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror.

6. A oficina treina e melhora a leitura, o que é condição básica para fazer ficção.

7. Para muita gente esta é a primeira chance de conviver ao vivo com quem gosta de escrever. Isso pode ser importante em muitos aspectos, dos mais solenes – troca de experiências, leituras e opiniões – aos mais dramáticos e divertidos – contatos futuros, informações sobre o meio literário e editorial, observação do comportamento alheio em guerras de ego, etc.

8. Uma oficina decente faz exercícios com diversos estilos, narradores, registros e eventualmente gêneros. Isso pode ajudar a descobrir uma vocação escondida.

9. Ainda no item 8: a oficina não dá talento a ninguém, e sim melhora a técnica, que é o instrumento para levar o talento à página em branco. Não imagino como possa acontecer o contrário, isto é, as aulas castrarem o potencial de alguém.

10. Ainda no item 9: há um momento, depois de terminado o curso e passado algum tempo, em que o aluno precisa se libertar do que aprendeu em aula. Mas até para isso a oficina é útil: ela dá os instrumentos para que este aluno encontre sua própria voz, se ela existir em algum lugar.