A maçã envenenada – trecho

(Mais sobre o livro aqui)

1.

Um suicídio muda tudo o que seu autor disse, cantou ou escreveu.  Para milhões de fãs do Nirvana, banda que o levou a ser chamado de porta-voz de uma geração, Kurt Cobain não é a infância em Aberdeen, o início da carreira em Seattle, o estrelato precoce que acabaria mudando a história da música com o disco Nevermind, nem o álcool e as drogas e a espiral de desespero acompanhada reiteradamente pela mídia, incluindo o casamento tumultuado com a cantora Courtney Love e o nascimento de sua única filha, Frances Bean. Ou é isso tudo, mas apenas como conjunto de sintomas, um espelho que aponta por meio de letras e versões desencontradas para uma cena nunca esclarecida, Lake Washington, abril de 1994, horas ou dias antes de um eletricista descobrir seu corpo com um tiro de espingarda na cabeça.

2.

Para mim, Kurt Cobain sempre será o homem que subiu ao palco do Morumbi, em 1993, para o que mais tarde chamaria de pior show da carreira do Nirvana. Na época eu morava em Porto Alegre, tinha dezoito anos e estava no quartel: a primeira guarda, as primeiras recomendações do pernoite, eu de pé numa quinta-feira em frente a um sargento gordo que falava dos cuidados com o fuzil. Ele não conseguia dizer a palavra senha, dizia sanha, e qual é o procedimento correto? Ele mesmo respondia: alto lá e pedir a sanha.

Eu estava no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, o CPOR, o quartel dos universitários que escaparam de limpar estrume numa unidade de cavalaria ou apanhar de sabonete na Polícia do Exército. Não fazia muita diferença: eu também me submetia às ordens do sargento gordo, e não importava que fosse chamado de aluno em vez de soldado, tivesse aulas de sociologia com um major do Guerra na Selva, assistisse a palestras sobre doenças venéreas e orçamento da União. Não importava a ditadura de 1964 a 1985, nem o impeachment de Collor em 1992, nem que a vida militar brasileira não despertasse mais o interesse de ninguém, menos ainda de quem morava com os pais e tinha uma guitarra e fazia parte de uma banda como eu, porque todas as manhãs era preciso estar de uniforme às sete, corneta, balde e vassoura, e o nome técnico para a retirada da hera da quadra de basquete é cri-cri.

3.

Acabei no CPOR porque um major amigo da família disse que meu nome estaria numa lista de dispensas do quartel de triagem. Mas ao chegar lá um cabo perguntou endereço, data de nascimento e se eu fazia faculdade. Direito. Onde? Na Federal. Eu tinha acabado o segundo semestre e fazia estágio num escritório de advocacia não muito longe dali, para onde pretendia ir depois de pegar o certificado de dispensa e fazer hora num café do mercado público. Já estava até planejado, eu já sabia até a fita que ouviria no walkman para comemorar, mas o cabo procurou o nome na lista e riu e deu a resposta que todo cabo sonha dar para um estudante de camisa social e pasta de couro e fone no pescoço: então vai trancar a matrícula.

A fita era uma gravação de Nevermind. Nos últimos vinte anos é possível que eu  tenha ouvido esse disco centenas, talvez milhares de vezes, e é como se em todas elas pudesse evocar 1993: a saída do quartel de triagem, a umidade e a sujeira do verão em Porto Alegre, o barulho dos ônibus e uma grávida que carregava um saco de lixo e era seguida por uma fila de cachorros enquanto eu olhava para o documento informando que a partir dali eu estaria sob jurisdição do Regulamento Disciplinar do Exército. Meu pelotão era o sexto, comandado pelo tenente Pires. Eram cinco colunas de seis, os mais altos à testa, os do fundo cobertos e alinhados tendo como referência a nuca do companheiro da frente. Trinta alunos, e com nenhum deles mantive contato. De nenhum eu tenho uma fotografia. Eu não sei se algum ainda vive em Porto Alegre, se teve filhos, se está vivo. Eu talvez não lembrasse de nada que aconteceu com eles além do folclore militar comum, o pelotão aprendendo a marchar, a fazer os movimentos com arma, a cantar no ritmo do passo direito enquanto a companhia desfila para o palco dos oficiais, não fosse uma história que começa com a vinda de Kurt Cobain para São Paulo.

4.

Na verdade, é uma história que começa antes, na noite em que conheci Valéria. Eu estava num bar da Independência, um lugar com escada de lata e paredes de suor condensado. Ela tinha a minha idade, a mãe morreu quando ela tinha quatro anos, o pai pagava para ela o aluguel de um quarto e sala a dois quarteirões dali, mas isso eu fiquei sabendo depois porque a primeira conversa foi objetiva: me disseram que você tem uma banda e está procurando uma cantora, alguém que suba lá e mande todo mundo se foder.

Eu olhei para ela: tatuagens antes de isso estar tão na moda, ela viu o meu copo e falei, gosta de vodca ruim? Sou masoquista, ela respondeu. Eu perguntei de quantas bandas ela tinha participado. Ela perguntou que tipo de música eu ouvia. Eu pedi outra dose, ela falou é nosso primeiro drinque juntos, aproveite porque pode ser o ápice, daqui para frente é um caminho sem volta, e fui reparando na boca e nos cabelos e na maneira como ela mexia os ombros e os quadris e quando me dei conta ela estava encostada em mim.

No apartamento de Valéria havia uma estante com fitas cassete, nomes de bandas desenhados em esferográfica, variações de caracteres quadrados e fontes com sombra e símbolos góticos e pontas imitando raios. Também havia um gato e um pôster de Kurt Cobain. A sala era um sofá puído e uma geladeira reformada que servia para guardar livros. Tenho gosto de velha para decoração, ela falou. Você gosta de coisa velha? Já trepou com uma pessoa mais velha? Eu tenho a sua idade, mas décadas a mais que você.

Como todo mundo nos anos 1990, Valéria cantava gritando. A banda também não era muito original, arranjos que alternavam leveza e peso, melodia e distorção, bases magras de baixo e bateria e a guitarra estourando com as três cordas graves nos refrões. Se você pegar os elementos básicos de Nevermind, os acordes maiores, os dedilhados e trivelas, as modulações de batidas e pausas e vocais reiterando as marteladas, tem todos os recursos das músicas que tocamos naqueles primeiros ensaios. Só que Valéria tinha uma certa doçura, mesmo que limitada à performance ao microfone, e já na primeira vez que a ouvi me dei conta de que isso faria diferença.

Entre a noite no bar da Independência e a vinda do Nirvana a São Paulo foram onze meses. Comparar o dia anterior ao primeiro encontro com Valéria e o posterior ao show é como falar de tempos diversos, mundos contrários entre si. De Valéria eu também não guardei fotos, nem uma peça de roupa, nem uma fita com alguma música da banda, mas é como se ela continuasse com dezoito anos num presente eterno, e cada vez que vejo os vídeos do Morumbi eu sei que ela está lá, nas trevas entre as primeiras filas, logo adiante de onde filmaram a entrada de Kurt Cobain em meio à luz azul.

5.

O Nirvana era a principal atração do Hollywood Rock, fechando a noite de sábado depois de apresentações de Dr. Sin, Engenheiros do Hawaii e L7. Kurt Cobain se hospedou com Courtney Love no Maksoud. Há uma reportagem em que João Gordo relata como foi a noite em que acompanhou o casal. Courtney Love teve uma crise de ciúmes e deu trezentos dólares para um travesti na Amaral Gurgel. Kurt Cobain ofereceu uma ampola quando a namorada de João Gordo se queixou de dor no estômago. A ampola foi guardada como troféu, o repórter mandou-a para um laboratório e descobriu se tratar de um remédio para dependência de heroína.

Durante o show Kurt Cobain gritou, chorou, gemeu, reclamou, interrompeu vários inícios de música, cuspiu e esfregou a calça nas câmeras. Também furou um amplificador com o braço da guitarra e caiu no palco. Ao final, saiu engatinhando. Um crítico definiu a apresentação como longa, abusada e displicente. E considerou o momento mais representativo do festival a cena em que o cantor, entre o desespero e a maldição, destruiu todos os instrumentos quase delicadamente, sob o silêncio da plateia e das estrelas.

6.

Na semana do Hollywood Rock, ninguém no CPOR falou sobre Kurt Cobain. O assunto era a noite de quinta, a primeira  em que dormiríamos num esquema de três horários, quatro horas de descanso para cada duas cuidando dos postos: portão, reforço, morro, lateral e paiol (…). A vida de quem está no quartel é ser punido, não há quem não tenha pagado pelos colegas, um pelotão inteiro que é posto para carregar pedra porque um aluno está com a calça sem vinco, uma companhia inteira que faz duzentos abdominais no barro porque alguém não tomou vacina. Quando se está de guarda isso é ainda mais fácil de acontecer, qualquer anotação é registrada no Boletim Interno, então a primeira sorte que se pode ter é em relação aos companheiros de serviço.

Um dos meus companheiros aquela noite se chamava Diogo. Era o que mais falava no banco da guarita. Ele passou o turno explicando como falsificar uma carteira de estudante, como dar um soco sem machucar o pulso, como abrir um carro usando um prego e um barbante e não dá nada porque PM é tudo putão, mas depois que ouvimos o sargento gordo no pernoite Diogo não contou mais nenhuma história. Eu não ouvi mais nenhuma palavra dele. Nós pegamos as canecas e fomos para a ceia, ele ficou na mesa ao lado e passamos a refeição evitando olhar um para o outro. Acabamos por volta de nove meia, voltamos para o alojamento, então o cabo da guarda comandou a coluna que rendeu o turno das dez.

O primeiro horário é razoável comparado com os demais. Dá para dormir três horas seguidas durante a noite. Mais que no segundo, que monta sentinela das duas às quatro e às cinco está de pé para a faxina, e o terceiro, que pega o auge do frio e da neblina no inverno. Durante a guarda os alunos ouvem música, bebem, dormem abraçados ao fuzil, e uma vez um cavalariano foi pego com um exemplar da revista de fotos Sodomia, mas naquela primeira noite eu passei o turno tentando me concentrar, pensando no que poderia e deveria fazer nos dias seguintes.

Uma das alternativas era sair do quartel na sexta, pegar um avião no sábado de manhã e chegar a Guarulhos na hora do almoço. Eu teria de atravessar a cidade até o Morumbi, mas isso não era problema. Eu teria que deixar a mochila em algum lugar, mas isso também se resolve. Eu teria de encontrar Valéria em meio à multidão, noventa mil pessoas de camisa de flanela e o cavanhaque de Kurt Cobain, mas até isso eu daria um jeito de fazer. O problema é que antes, por causa de Diogo e do sargento gordo, e era esta a dúvida que eu tinha no paiol, a escolha que mudaria tudo nas duas décadas a partir de então, o mais provável é que eu estivesse preso.

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