O que deveria estar ali?

por Michel Laub

Em 2001, o compositor alemão Karlheinz Stockhausen causou algum barulho ao dizer que os atentados do 11/9 eram a maior obra de arte já realizada. Pouco depois, pulando o debate sobre a inconveniência da frase naquele momento dramático, o escritor, curador e crítico Teixeira Coelho publicou um ensaio na revista Bravo sobre a presença do mal em pinturas, livros, filmes.

O texto não tratava de questões temáticas: obras sobre dor ou injustiça, por exemplo. Comentando sobre uma tela de Coopley (1778), na qual um tubarão está prestes a atacar uma mulher nua, Coelho escreve que nela “perigosa é a vida, não a arte”, pois essa “não ameaça nem seu observador, nem seu artista”. Já numa de J. Vanderlyn (1804), em que uma branca está prestes a ser morta por indígenas, o tom seria o do martírio – “e o martírio (…), ao menos para a vítima, pode ser o caminho do bem.”

O mal na arte é outra coisa: “Aquilo que não deveria estar ali (…), que não deveria ser desse modo”. Um dos casos citados no ensaio é Retrato da Família Gozzadini (1584), pintura da italiana Lavinia Fontana que põe em cena uma dinastia nobre de Bolonha, misturando personagens vivos e mortos. O incômodo que emerge da tela é mais difuso, menos suportável porque estático, “sempre igual a si mesmo”: “Não há torturas e mortes, apenas um retrato de grupo. Mas a escuridão prevalece, as feições são duras, as mãos se crispam num pálido balé ameaçador que as roupas suntuosas tornam ainda mais pesado.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 8-7-2022. Íntegra aqui.