O furacão que tudo contém

por Michel Laub

Como explicar a tragédia política brasileira a partir da estética? A pergunta acompanha quem lê o clássico As Raízes do Romantismo, do filósofo anglo-russo Isaiah Berlin (1909-1997), que acaba de sair em nova edição pela Fósforo (246 págs., tradução de Isa Mara Lando). Baseado em palestras dadas em 1965, em Washington, o livro descreve uma “doutrina ardente, fanática, meio insana” que, em alguns aspectos, e ao menos na projeção imediata de quem lê, dialoga com o noticiário de 2022.

Berlin pena ao buscar uma definição do romantismo, a “maior mudança já ocorrida na consciência do Ocidente”. Afinal, esse movimento cujas origens remontam à Alemanha do século 18, um território isolado e ainda devastado pela derrota na Guerra dos 30 anos (1618-1638), é múltiplo e contraditório. Nele convivem a saúde e a doença, o misterioso e o familiar, o caos das revoluções e a dissolução pacífica no “eterno espírito que tudo contém”, entre dezenas de opostos listados.

Em determinado ponto, contudo, há uma tentativa de síntese. O que unira a fragmentação romântica nas artes, na moral, no pensamento e na ação política seria a vontade de “romper a natureza do que é dado”, aplicada a um alvo específico: a tradição racionalista ocidental, então encarnada pelo Iluminismo, com sua ideia de que a história anda rumo ao progresso, de que a vida é um quebra-cabeças cujas peças o método científico/analítico há de encaixar.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 22/4/2022. Íntegra aqui.