Um ramo das ações práticas

por Michel Laub

Em 1992, quando fui obrigado a servir no CPOR de Porto Alegre, ouvi muitas queixas dos militares sobre a então recente demarcação das terras Yanomâmi, na Amazônia. Um oficial dizia que era preciso conhecer a floresta num “avião de verdade”, um teco-teco que voasse em distância visual da copa das árvores, para ter a dimensão do que estava realmente em disputa ali: uma riqueza esperando “até a linha do horizonte” para ser “descoberta” e “salvar o país”.

Algumas semanas atrás tive experiência semelhante, mas sob outro ângulo. Estive no festival literário Navegar é Preciso, promovido pela Livraria da Vila/SP e a agência Auroraeco, que há dez anos leva escritores, artistas e público numa viagem magnífica pelo Rio Negro, partindo de Manaus. Da cabine do barco, a noção de espaço do teco-teco vira um outro tipo de infinito, compensando os limites do olhar que só chega a algumas centenas de metros: a paisagem mais ou menos monótona das margens do rio, com árvores não muito altas e não muito diferentes entre si, deixa na imaginação a marca de sua constância por horas, dias.

Ter contato com a floresta é pensar no tempo. No imaginário da região, as distâncias não são medidas em metros ou quilômetros, mas pela duração dos percursos a pé ou na água. Um dos guias da viagem, Auzenir Botelho de Souza, que passou a infância numa comunidade ribeirinha onde os vizinhos não enxergavam as casas uns dos outros, usa décadas de observação e treino em caçadas com o pai para ganhar o sustento. Capaz de imitar o assovio de mais de cinquenta pássaros, por muitos anos ele ajudou cientistas estrangeiros a identificar espécies na língua local (“Catitu”, “Chorona da Canarana”, “Surucuá do Rabo Branco”) e no inglês que estudou sozinho (“Musician Wren”, “Pigmy Screech Owl”).

Numa lancha à noite, horário de atividade da maioria dos animais, Souza reconhece o som de ratos do mato, mergulhões, corujas. Alguns cantam para se acasalar ou proteger o território, numa sinfonia exuberante de vida que revela, nos mesmos acordes, uma precariedade comovente: o equilíbrio ameaçado pela ação humana, como a beleza de um corpo jovem prestes a morrer.

Muita coisa continua igual de 1992 para cá, e muita coisa mudou. Aquele foi o ano da ECO, conferência mundial sobre o clima que fez chegar ao mainstream uma ideia romântica, transformada em urgência política pelos movimentos ecológicos dos anos 1960/1970: a de que havia algo a se aprender com a floresta, em vez de impor a ela a lógica sob a qual vivemos na cidade, no sistema capitalista.

Nas últimas décadas essa ideia se tornou dominante entre acadêmicos, ativistas e público sensível – vide a repercussão do que diz uma liderança Yanomâmi como Davi Kopenawa. Mas no mundo concreto quem venceu foi o oficial do CPOR, cujo discurso é o do governo brasileiro de turno: uma visão tributária da ditadura, que situa a Amazônia na geopolítica moldada pela Guerra Fria – com seu combate a ongues “vermelhas”, seu desenvolvimentismo local de curto prazo diante de uma emergência que é planetária, da espécie como um todo. Para quem está minimamente informado a respeito, o cenário é desolador. Mas há luzes aqui e ali.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/5/2022. Íntegra aqui.