O julgamento do infinito

por Michel Laub

No final de 1912, a editora alemã Rowohlt Verlag publicou uma reunião de “poemas em prosa” chamada Contemplação, estreia na literatura de um jovem tcheco chamado Franz Kafka. A tiragem foi modesta, 800 exemplares, e a recepção um tanto morna, com exceção de uma resenha assinada por um compatriota e amigo, Max Brod. “Consigo facilmente imaginar alguém botando as mãos no livro e constatando que sua vida se alterou por inteiro dali por diante”, ele afirmou, num tom que tinha algo de profético para além da banalidade superlativa.

Brod foi um autor de algum sucesso, tendo publicado romances, contos, ensaios e memórias. Seu nome teria se apagado da história literária, contudo, não fosse a decisão célebre que tomou em 1924: desrespeitando a vontade de Kafka expressa pouco antes de morrer, ele se negou a queimar os manuscritos do amigo. Entre eles estavam textos inacabados, que depois de edições póstumas viraram O Processo e Carta ao Pai: obras que só conhecemos porque escaparam pela segunda vez da extinção em 1939, quando Brod fugiu do nazismo num périplo de trem e navio que o levou de Praga a Tel Aviv.

Se a história da fuga é aventuresca, seu final tardio traz uma nota burocrática: em 2016, a Suprema Corte israelense se debruçou sobre uma disputa pela guarda de parte dos papeis. Os litigantes eram as herdeiras da secretária de Brod, para quem ele deixou os direitos em testamento, o arquivo de Marbach, entidade pública alemã para onde elas queriam vender um lote do material, e a Biblioteca Nacional de Israel, interessada no legado de um autor marcado pelo antissemitismo na diáspora. Os detalhes do caso, incluindo as inevitáveis chicanas técnicas e morais dos envolvidos, são narrados no ótimo O Último Processo de Kafka (Arquipelago, 272 págs., tradução de Rodrigo Breunig).

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 2/7/2021. Íntegra aqui.