A terra e os ossos

por Michel Laub

A palavra exata sempre foi uma arma política. Uma batalha de opinião pública começa a ser vencida quando definimos alguém como militante ou terrorista. O mesmo se dá com a memória coletiva: existem disputas sobre como chamar o processo industrial de extermínio dos judeus na Segunda Guerra (Holocausto ou Shoá), sobre o nome do horror na Ruanda de 1994 (o equivalente local para “massacre” ou “massacre absoluto”), sobre a aplicação do termo “genocídio” ao que ocorreu com os armênios em 1915 ou segue ocorrendo com os povos indígenas brasileiros.

É claro que só esse debate não previne a violência. Mas sua pertinência reafirma o poder da linguagem – e, logo, da ficção – no diálogo entre verdade histórica e sensibilidade individual, condição para um futuro que aprenda com os crimes políticos do passado. Dá para ler Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia, 264 págs.), sob essa chave: o impacto do romance, que expõe as feridas da herança escravocrata na trajetória de duas irmãs no sertão baiano, num enredo que inclui um trauma de infância, misticismo afro-brasileiro, disputa de terras e luta sindical, é antes de mais nada um feito narrativo, estético.

O livro saiu no ano passado, depois de ganhar o prêmio Leya de literatura (que contempla textos inéditos) e ser publicado com sucesso em Portugal. Nascido em Salvador, em 1979, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, Itamar foi apresentado na imprensa brasileira como a raridade sociológica que de fato representa: um autor negro em meio a uma literatura majoritariamente produzida por nomes da classe média branca, que falam de temas ligados ao seu entorno – ou que, quando se propõem a sair dele, com frequência o fazem com um olhar próximo do exotismo e/ou paternalismo.

O triunfo de Torto Arado, porém, não existiria sem um manejo formal do tema para além do que já se sabe via noticiário ou militância. Esse é sempre um ponto delicado quando se faz ficção a quente, sobre algo que está no centro do debate do dia-a-dia. Enquanto algumas frases poderiam estar num post genérico sobre a situação dos quilombolas no Brasil (“passaram a entender por que ainda sofriam preconceito no posto de saúde, no mercado”), em outras a especificidade faz o livro ganhar força: “Morreu depois de comer uma sariema no desespero da fome; a ave tinha comido uma cascavel e sua carne estava impregnada do veneno.”

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/8/2020. Íntegra aqui.