Música tardia

por Michel Laub

Em 1937, num ensaio sobre os anos derradeiros da carreira de Beethoven, Theodor Adorno fez considerações sobre o que chamou de “estilo tardio”. Mais tarde retomada numa coletânea homônima de Edward Said, que a aplicou a nomes como Wagner e Jean Genet, a expressão designa uma guinada formal radical que alguns artistas promovem diante da proximidade da morte – um tipo de maturidade estética que não passa pela harmonia, pela doçura serena que a técnica e a experiência poderiam oferecer. Diferentemente, tais obras se tornam “amargas”, “espinhosas”, uma espécie de procura pela “catástrofe” de quem não está mais interessado no “mero deleite” do público.

Num texto recente para a revista The New Yorker, o crítico Max Norman voltou ao tema comentando um livro do historiador Carel Blotkamp, que propõe uma hipótese interessante:  o conceito de estilo tardio não corresponderia, também, a projeções de nós leitores, ouvintes e espectadores? Isto é, não usamos supostos sentidos desses trabalhos finais para saciar nossa “fome por narrativas fechadas”, inclusive as que relacionam vida e obra, porque isso é mais fácil que aceitar o acaso – comum na arte, afinal – ou razões menos visíveis/previsíveis daquilo que queremos entender?

Se há algo que não costuma ser citado quando se fala de João Gilberto Noll, morto em 2017, são as teses de Adorno e Said. Não porque a obra de maturidade do ficcionista gaúcho seja pacífica/harmônica, pelo contrário, mas porque ela nunca se desviou de um caminho que parecia dado desde o início. Da estreia com os contos de O Cego e a Dançarina (1980) ao seu último romance publicado, Solidão Continental (2012), e a par do alto nível mantido em quase todos esses trabalhos, é possível ver no autor o mesmo tema se repetindo com pequenas variações de registro.

E, no entanto, não é absurdo falar numa mudança em nossa visão dessa obra, algo que se intensificou ao longo dos anos. Porque ler Noll em 2000-2010 não era mais como lê-lo em 1980-1990.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 7/2/2020. Íntegra para assinantes aqui.