As sombras de Tanizaki

por Michel Laub

É possível que a visão de mundo que impulsiona o melhor da obra do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) possa ser resumida numa imagem de seu ensaio Em Louvor da Sombra, de 1933 (Penguin, 72 págs., tradução de Leiko Gotoda): “Da mesma forma que uma gema fosforescente brilha no escuro, mas perde o encanto quando exposta à luz solar, creio que a beleza inexiste sem a sombra.”

Escrito numa época de grande choque entre o nacionalismo japonês e a modernidade ocidental, por um autor que parecia renunciar ao traço vanguardista/europeizante do início da carreira, Em Louvor… exalta o mistério que seria típico da cultura do país – ou daquilo que, segundo seus próprios termos, não seria óbvio, prático, útil de forma consumista e filistina. “[Talvez] não tivéssemos feito grandes progressos materiais se fôssemos deixados à mercê da nossa sorte nos últimos quinhentos anos”, diz um trecho. “Mas ao menos estaríamos seguindo um rumo que nos agrada. E um dia – impossível não seria – talvez viéssemos a descobrir, em lento e cuidadoso progresso, substitutos para os trens, os aviões e os rádios atuais, inventos não mais tomados de empréstimo de outras civilizações”.

Ao longo das décadas desde a sua publicação, Em Louvor… gerou discussões sobre uma possível ambiguidade no conservadorismo que o inspirou. No posfácio da edição brasileira, o crítico e professor Pedro Erber retoma dessa hipótese, sugerindo que pode haver ironia no texto – e que sua suposta celebração da tradição seria, na verdade, uma alfinetada no tom laudatório do militarismo de sua época.

É uma hipótese generosa com o autor, que numa análise moral e política atualizada – e dando desconto para os aspectos anacrônicos do juízo – ficaria numa posição incômoda caso o texto fosse reduzido ao seu valor de face. Tanizaki fala de um arco vasto de temas, de pintura a arquitetura, da pele dos atores do teatro Nô ao material de tigelas de sopa, passando por vestidos, panos, vasos sanitários, arranjos de flores e toda sorte de objetos e fenômenos da cultura ameaçados pelo que considera imperdoável na vulgaridade moderna, tanto quanto parece lamentar alguns dos princípios democráticos que essa modernidade (às vezes) traz no pacote – como a busca por igualdade de classe, etnia e gênero.

Se no ensaio essa é uma discussão pertinente, por se tratar de um gênero que pode ter um traço programático, na ficção as coisas são mais complexas. Ao ser expressa na maioria de seus contos, novelas e romances, a idiossincrasia de Tanizaki ganha um sabor que – como em toda grande literatura, porque esta é sempre parcial, caprichosa – é notável em originalidade.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 10/1/2020, sobre as novelas A Ponte Flutuante dos Sonhos e Retrato de Shunkin, publicadas no Brasil pela Estação Liberdade. Íntegra para assinantes aqui.

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