Diante da barbárie

por Michel Laub

“O sol é um astro frio. Seu coração, espinhos de gelo. Sua luz, sem perdão. Em fevereiro as árvores estão mortas, o rio petrificado, como se a nascente não vomitasse mais água e o mar não pudesse engolir mais. O tempo congela”.

Assim começa A Ordem do Dia, do francês Éric Vuillard, romance que ganhou o Prêmio Goncourt de 2017 (Tusquets, 140 págs., tradução de Sandra M. Stroparo). O trecho é menos solene e mais irônico do que parece, considerando o que pode haver de ironia numa tragédia histórica. Trata-se da ficcionalização de um encontro real, em 1933, entre dirigentes nazistas e barões alemães da indústria e das finanças.

O propósito era arrecadar fundos para o partido que recém chegara ao poder. Em alguma fresta das conversas, em meio à “neblina de seus ânimos e de seus cálculos”, esses senhores vetustos tiveram a chance de dizer não ao projeto claro que lhes foi apresentado – e não disseram. Premiadas pela adesão, empresas como Bayer, Siemens e Telefunken tiveram grande crescimento durante os anos de preparo e implantação da Segunda Guerra.

Vuillard não está preocupado com as justificativas individuais desse oportunismo. A pergunta central do romance é mais ampla, embora passe pelas pequenas peças que o ego e a consciência de classe pregaram nos envolvidos: em que medida as próprias regras da civilização, incluindo as leis, a linguagem, a etiqueta e o teatro do poder como um todo, não foram corresponsáveis pela vitória da barbárie? Além do encontro de 1933, o romance descreve eventos como um jantar em Londres no dia em que a Alemanha anexou a Áustria, em 1938, entre o ministro alemão das relações exteriores Joachim Von Ribbentrop e o primeiro ministro inglês Neville Chamberlain; e as tratativas sobre detalhes jurídicos e operacionais dessa anexação, em Berchtesgaden, na Baviera, entre o chanceler austríaco Kurt Schuschnigg e o próprio Adolf Hitler.

Trecho de artigo publicado no Valor Esonômico, 6/12/2019. Íntegra aqui.