Apocalipse agora, depois e antes

por Michel Laub

“Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer esse mundo”, disse o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro numa entrevista a Eliane Brum publicada no El Pais, em 2014, citando ideias do pensador alemão Günther Anders. “Nós estamos virando o contrário (…). A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensá-la.”

Viveiros de Castro talvez não esteja se referindo à literatura “stricto senso”, mas poderia estar. Se o triunfalismo do discurso técnico nos aprisiona em parâmetros utilitários e amorais, algo que tanto pode nos salvar quanto destruir, a ficção tem o poder de ampliar esses limites – com perguntas inesperadas, eventualmente indigestas, que levam a respostas salvadoras ao menos no campo da sensibilidade. É o que faz um romance como A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron (Todavia, 116 páginas), ao introduzir nuances do fator humano – no fim das contas, o único importante quando se fala de progresso – numa discussão sobre o futuro.

Situado por volta de 2030, depois de uma catástrofe que extinguiu a Amazônia, o livro é em parte narrado por um funcionário do governo mexicano a quem coube trazer ao seu país, como exilados políticos, os cinquenta últimos remanescentes da etnia indígena kaajapukugi. A tarefa lhe foi passada pelo sertanista Boaventura, primeiro a ter contato com esse povo então isolado, cujos costumes ele conheceu nos anos 1980 e registrou – é a segunda voz do romance – num depoimento em vídeo pouco antes de morrer.

A Morte… remete a Viveiros de Castro não só pela imaginação oceânica de Terron, capaz de pensar nos efeitos de muitas das bombas armadas por nossas escolhas políticas e culturais das últimas décadas, mas por juntar ao tradicional formato da distopia – a descrição de um futuro terrível a partir de elementos reconhecíveis da realidade próxima – uma ideia cara ao antropólogo: a de que o apocalipse também pode ser um evento do presente e do passado.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 22/11/2019. Íntegra aqui.