Sonhos, imaginação, futuro

por Michel Laub

Qual a função de um sonho? Para chefes militares do passado, podia ser escolher estratégias de batalha. Para Kekulé, foi visualizar a estrutura do benzeno. Para Elias Howe, perceber que uma pequena mudança no uso da agulha permitiria inventar a máquina de costura. Para Paul McCartney, ouvir pela primeira vez os acordes de Yesterday.

Em O Oráculo da Noite (Companhia das Letras, 459 págs.), Sidarta Ribeiro conta essas e outras histórias dentro de uma grande história científica e cultural do que acontece quando estamos de olhos fechados, esse “modo de consciência off-line” que estaria na origem – por exemplo – da criação dos deuses e da religião.

Escrito por um dos cientistas brasileiros de maior prestígio hoje, trata-se de um apanhado longo e erudito que passa por diferentes épocas e culturas, dos primeiros mamíferos aos ocidentais pós-neurociência, dos sumérios, egípcios e babilônios aos ciborgues da era da informática, usando a experiência pessoal na pesquisa de ponta e ferramentas de áreas como biologia, antropologia, psicanálise e literatura.

O oráculo do título tem pouco de esotérico. Sidarta relaciona mecanismos de fixação e reestruturação da memória – que ocorrem em fases diferentes do sono – com aspectos importantes de nossa evolução como espécie. Enredos oníricos, remetam eles a episódios que ocorreram de fato ou a sentidos que parecem incoerentes, funcionariam como simulações preparatórias para situações que enfrentaremos acordados. Ou seja, uma mistura de consolidação do conhecimento e, se o sonho certo conseguir ser interpretado do modo certo, profecia que interfere no futuro.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 8/11/2019, sobre os livros O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, e Sapiens, de Yuval Noah Harari. Íntegra aqui.