‘Morangos Mofados’, 2019

por Michel Laub

Quando Caio Fernando Abreu (1948-1996) lançou Morangos Mofados, em 1982, não havia como dissociar o livro do momento vivido pelo país. Em plena transição entre a Anistia de 1979 e o fim formal da ditadura em 1985, era natural que a recepção crítica fosse pautada pelo viés histórico/político. Como se o tom em geral amargo desses 19 contos, que acabam de ganhar nova edição (Companhia das Letras, 188 págs.), refletisse diretamente os tempos duros em que eles foram concebidos.

A leitura não estava errada, mas não era suficiente. Como então notou Heloísa Buarque de Holanda, o autor havia feito um retrato mais íntimo, e ao mesmo tempo mais amplo, de uma experiência de geração que não estava restrita ao grande tabuleiro do poder institucional: “Ao contrário da maioria dos relatos recentes sobre a opção guerrilheira, cuja palavra de ordem é a autocrítica irônica, e que apresentam, às vezes até didaticamente, novos e seguros rumos (…), [o livro] não deixa de revelar uma enorme perplexidade diante da falência de um sonho.”

Dividido em dois grandes blocos, o primeiro bastante pessimista, o segundo com acenos discretos a possibilidades de futuro para os personagens, Morangos Mofados é e não é um documento de época (…). Em Os Sobreviventes, talvez o melhor conto do livro, ou ao menos o mais simbólico, uma personagem reflete sobre o que é abandonar “Marcuse, depois Reich, depois Castanheda”, o culto então já obsoleto à Paris de Sartre nos 1950, à psicodelia na Londres dos 1960, ao hedonismo na Nova York dos 1970. O tom é de algum modo oitentista, na voz de quem tentou de “drogas acupuntura suicídio” a “marxismo candomblé boate gay ecologia”, mas a sensação de queda por trás de tudo não datou: no geral, ainda é possível que isso toque o leitor jovem que tem o primeiro contato com a ficção de Caio. Há vários motivos para tanto.

(Trecho condensado de artigo publicado no Valor Econômico, 11/10/2019. Íntegra aqui).