Sono versus bombardeio

por Michel Laub

“Não consigo reconhecer nada que justifique minha decisão”, diz a narradora de Meu Ano de Descanso e Relaxamento, terceiro romance da americana Ottessa Moshfegh (Todavia, 238 págs., tradução de Juliana Cunha), sobre os meses em que se entupiu de remédios para dormir quase vinte e quatro horas por dia. “No começo, eu só queria uns tranquilizantes para abafar meus pensamentos e juízos, já que o bombardeio constante tornava difícil a tarefa de não odiar a tudo e a todos.”

Culta, inteligente e bonita, vivendo de uma herança em meio ao esplendor nova-iorquino da virada do milênio, essa mulher de vinte e sete anos que dá as costas para o trabalho numa galeria de arte e as relações afetivas próximas não é, a princípio, uma personagem a ser gostada. Sua escolha por uma hibernação química que parece um fim em si mesmo, e não um caminho reflexivo, o que seria esperado numa jornada sabática para melhora espiritual (ou de saúde, ou de outro aspecto visto como nobre pela ortodoxia do nosso tempo), soa como mero capricho bem-nascido.

Mas claro que há um truque no discurso. A justificativa busca a cumplicidade de um leitor que, como qualquer pessoa sã a par do noticiário em 2000 ou 2019, também se sente esmagado pelo “bombardeio” – de informação, de estímulo, das cobranças pessoais e profissionais típicas do nosso século. O ideal de escape alienado, que a ideia do sono representa bem, é um tema relativamente comum no mercado contemporâneo dos desejos.

Ou seja, trata-se de um romance concebido para fazer o leitor alternar entre distanciamento e proximidade – entre a repulsa, dadas as várias atitudes condenáveis da protagonista, e uma certa admiração por sua coragem e desprendimento. Num presente que se repete entre lembranças de um passado sem lições a seguir, ela espelha/enfrenta tipos que são faces diversas do mesmo vazio: Reva, a amiga bulímica presa a noções vulgares de beleza; Trevor, o ex-namorado propenso a abusar e ser abusado; Tattle, a terapeuta sarcástica, irresponsável e incapaz de gestos de empatia.

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 27/10/2019. Íntegra aqui.

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