O fim do desejo

por Michel Laub

“Eu ainda não tinha visto um romance mostrar que entrar no mundo do trabalho é como ir para a cova”, disse Michel Houellebecq numa entrevista à Paris Review, comentando o que o levou a escrever ficção. “Nem que há pessoas com e sem vida sexual não por razões morais, e sim porque umas são mais atraentes que as outras”.

A lacuna começaria a ser preenchida, claro, com Extensão do Domínio da Luta, estreia literária dessa figura francesa controversa, em 1994. À parte o exagero da entrevista – sempre houve livros sobre frustrações profissionais e amorosas de todo tipo –, é inegável que sua obra criou um elo original entre o tema fundador – as variações de um grande impasse do desejo – e todo um contexto político, econômico e cultural.

O arranjo está de novo presente em Serotonina, que acaba de sair no Brasil (Alfaguara, 240 páginas, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman). Na história de Florent-Claude Labrouste, engenheiro agrônomo que viaja por Espanha e França em busca de alento para o que vê como fim de linha existencial, ouvimos ecos de um outro fim – a apatia europeia, e especialmente branca, masculina, de classe média e meia idade, diante de crises como as do humanismo e do Estado de bem-estar social firmados a partir do pós-guerra.

Início de texto publicado no Valor Econômico, 16/8/2019. Íntegra aqui.

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