Conrad no espelho

por Michel Laub

Talvez Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad (1857–1924), cuja nova edição brasileira acaba de sair pela Ubu (224 págs., tradução de Paulo Schiller), ainda possa ser lido como mero romance de aventura. Afinal, algumas convenções do gênero – a descrição de ambientes exóticos, a narrativa que acumula peripécias – são honradas com brilho em suas páginas.

Mas é difícil não ver nos dilemas da história, inseridos numa prosa ao mesmo tempo rigorosa e exuberante, simbólica e documental, escrita por um autor de origem polonesa no inglês que só mais velho ele dominou por completo, uma tentativa de atingir os céus ingratos da alta ficção.

Ao longo do Século XX, a crítica parece ter entendido o jogo proposto por Conrad. A interpretação mais comum da trama, sobre a viagem de um marinheiro chamado Marlow para encontrar um sujeito chamado Kurtz, funcionário de uma companhia belga de extração de marfim no Congo, é a de uma espécie de testemunho histórico: a denúncia de um sistema de poder – o colonialismo – que torna tênue ou faz desaparecer a fronteira entre civilização e barbárie.

Há trechos em profusão para confirmar a tese. Considerada elusiva, elíptica, a ponto de não nomear nem o Congo e nem a Bélgica, a linguagem de Conrad é direta o suficiente ao descrever a ganância dos europeus na colônia (“a palavra ‘marfim’ ecoava no ar, sussurrada, suspirada […], como o cheiro de um cadáver”) ou na metrópole (um “sepulcro branqueado” com “pessoas correndo pelas ruas para surrupiar um pouco de dinheiro umas das outras”).

Igualmente direto é o diagnóstico sobre a justificação dessa ganância. O que às vezes chega a sínteses do próprio colonialismo: “A conquista da terra, que significa sobretudo tirá-la daqueles que têm uma pele diferente ou o nariz mais achatado que o nosso, não é uma coisa bonita quando vista muito de perto. O que a redime é (…) uma crença desprendida na ideia – alguma coisa que criamos para que diante dela nos curvemos e lhe ofereçamos um sacrifício.”

Por outro lado, a leitura à revelia de supostas intenções do narrador – ou do autor – é parte da fortuna crítica de um clássico. No caso de Conrad, e ao longo das últimas décadas, ela acabou jogando em seu colo uma discussão que faria pouco sentido em 1902. Se a citada definição de colonialismo desconstrói as teses racialistas da virada do Século XIX para o XX, por exemplo, nossa sensibilidade atual não pode deixar de ver em outros trechos o avesso disso – o etnocentrismo de quem considera africanos “selvagens”, repara no “rosto negro insolente” de um ajudante, não vê em nenhum deles um personagem de relevo (e sim “sombras negras de doença e fome, espalhadas confusamente na penumbra esverdeada”). Há racismo no livro?

Trecho de texto publicado no Valor Econômico, 2/8/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.

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