Os que não foram convidados

por Michel Laub

Dos anos 1930 aos 1960, o americano Joseph Mitchell renovou o jornalismo moderno ao escrever sobre pessoas comuns – ou bastante incomuns, mas anônimas – em longos perfis para a revista The New Yorker. Seu trabalho mais conhecido, O Segredo de Joe Gould (publicado no Brasil pela Companhia das Letras), é composto por dois desses perfis. O primeiro, de 1942, trata de um mendigo formado em Harvard que dizia estar escrevendo a “História Oral” da humanidade, livro “onze vezes maior que a Bíblia” sobre “o que o povo tem a declarar sobre seus empregos, amores, comidas, pileques, problemas, tristezas”. No segundo, de 1964, Mitchell retoma os bastidores da reportagem para contar o fato mais importante da vida de Gould, descoberto só depois que a revista havia chegado às bancas.

O projeto da “História Oral”, como se sabe, acabou sendo realizado por outros anônimos do século seguinte: os bilhões de pessoas que passaram a depositar suas intimidades relevantes e irrelevantes nas redes sociais. Já o caminho indicado por Mitchell deu e dá frutos no melhor que o perfil jornalístico ainda tem a oferecer. Um exemplo recente, e curiosamente semelhante no caráter duplo da empreitada – duas grandes reportagens, a última a partir de informações que surgiram por causa da publicação da primeira –, é Ricardo e Vânia, livro de Chico Felitti escrito a partir de uma apuração em conjunto com sua mãe, Isabel Dias, e que acaba de sair pela Todavia.

Não se trata de uma comparação de estilo. O Segredo de Joe Gould e Ricardo e Vânia são textos de épocas diversas, com noções de originalidade e impacto literário diversas diante de públicos também diversos. Mitchell podia se dar ao luxo da lentidão, digamos assim, pois contava com um leitor disposto a destrinchar com paciência as sutilezas de sua prosa – o ritmo elegante que alterna descrições sumárias e detalhadas, drama contido e humor terno, punch lines espirituosos e longas aspas (hoje fora de uso porque soam inverossímeis) dos entrevistados. Felitti, por sua vez, escreve com mais urgência: há todo um diálogo entre a economia de atenção dos nossos dias e a quebra de seus parágrafos, por exemplo, cuja frequência alta torna a respiração do texto mais curta, familiar a um mundo em que a não-ficção precisa ser mais objetiva, ou gritar mais nas escolhas temáticas e de ponto de vista, para se destacar da infinita concorrência de narrativas ao redor.

Num nível menos formal, contudo, o que os dois livros têm em comum começa pelo respeito ao material humano que os compõe, algo visível no tempo que os autores dedicam a ouvir, fazer visitas, ir atrás de informações que parecem (e não são) meros detalhes. Há um sentido político nesse método, o de dar aos personagens a melhor chance de serem o que a pintora Sarah Berman enxergou em Joe Gould: uma espécie de “inconsciente” das sociedades que os abrigam a contragosto, a voz através da qual falam os que “nunca pertenceram a lugar nenhum”, os “magoados, amargos, loucos – gente que nunca recebeu seu quinhão (…), que nunca foi convidada.”

Trecho inicial de texto publicado no Valor Econômico, 15/3/2019. Íntegra para assinantes/cadastrados aqui.