Um par de botas com cravos

por Michel Laub

W.G. Sebald em Os Emigrantes (Record, 236 págs., tradução de Lya Luft):

“No fim do período escolar, quando tirei a melhor nota de minha turma nos exames finais, parecia ter percorrido um trajeto imenso. Tinha chegado ao auge da autoestima e, como numa espécie de segunda confirmação, mudei meu nome de Hersch para Henry e o sobrenome de Seweryn para Selwyn. Singularmente, logo no começo de meus estudos de medicina, feitos em Cambridge mais uma vez com bolsa, senti que minha capacidade de estudar diminuíra sensivelmente, embora também em Cambridge meus exames tivessem obtido as melhores notas. O senhor já sabe como tudo continuou, disse o dr. Selwyn. Veio o ano na Suíça, a guerra, o primeiro ano de trabalho na Índia e o casamento com Heidi, a quem por muito tempo ainda escondi minha origem. Nos anos vinte e trinta vivemos em grande estilo, do qual o senhor viu o que restou. Gastamos nisso boa parte da fortuna dela. Eu trabalhava em meu consultório na cidade e como cirurgião no hospital, mas os meus ganhos não teriam permitido aquele padrão de vida. Nos meses de verão fazíamos passeios de carro pela Europa toda. Next to tennis, disse o dr. Selwyn, motoring was my greatest passion in those days. Todos os carros ainda continuam nas garagens e talvez valham algum dinheiro. Mas nunca consegui vender nada, except perhaps, at one point, my soul (…). Não cheguei sequer a providenciar uma aposentadoria para minha velhice. This is why I am now almost a pauper. Em compensação, Heidi administrou bem o resto de sua fortuna, nada desprezível, e hoje é com certeza uma mulher rica. Ainda não sei direito o que nos separou, o dinheiro ou o segredo de minha origem que ela finalmente descobriu, ou simplesmente o arrefecimento do amor. Os anos da Segunda Guerra e as décadas subsequentes foram para mim um tempo sem sentido e ruim, sobre o qual, mesmo que quisesse, nada teria a contar. Quando em 1960 tive de fechar meu consultório e despachar meus clientes, desfiz os últimos contatos com o chamado mundo real. Desde então quase só falo com plantas e animais. De algum modo me dou bem com eles, disse o dr. Selwyn com um sorriso meio enigmático. Finalizando o discurso, levantou-se e, o que foi altamente inusitado, ofereceu a mão em despedida.

Depois dessa visita o dr. Selwyn nos procurou cada vez menos e a intervalos cada vez maiores. Nós o vimos pela última vez no dia em que trouxe para Clara um ramo de rosas brancas com madressilvas, pouco antes de partirmos de férias para a França. Algumas semanas depois, no fim do verão, ele se matou com uma bala de sua pesada espingarda de caça. Como ficamos sabendo em nosso regresso, ele se sentara na beira da cama, botara a arma entre as pernas, pousara o queixo na ponta do cano e em seguida, pela primeira vez desde que comprara a arma antes de viajar para a Índia, disparara um tiro com intenção de matar. Quando recebemos a notícia não me foi difícil vencer o horror inicial. Mas, cada vez entendo melhor, certas coisas têm um jeito inesperado de retornar, muitas vezes depois de longo tempo ausentes. Pelo fim de julho de 1986 passei alguns dias na Suíça. Na manhã do dia 23 fui de trem de Zurique a Lausanne. Quando o trem cruzou lentamente a ponte do Aare, entrando em Berna, meu olhar viajou da cidade à cadeia de montanhas. Se não estou apenas imaginando agora, lembrei-me do dr. Selwyn nessa ocasião pela primeira vez depois de muito tempo. Quarenta e cinco minutos depois, para não perder a visão daquela magnífica paisagem do lago de Genebra, já ia deixando de lado um jornal de Lausanne, comprado em Zurique, que estivera folheando, quando uma notícia chamou minha atenção: dizia que os restos mortais do guia de montanhas Johannes Naegelli, desaparecido desde o verão de 1914, tinha sido devolvido depois de 72 anos pela geleira de Oberaar. Assim, pois, retornam os mortos. Às vezes depois de mais de sete décadas eles saem do gelo e ficam deitados na beira da morena, um montinho de ossos polidos e um par de botas com cravos.”

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