Com o chicote da linguagem

por Michel Laub

Numa passagem de À Sombra dos Viadutos em Flor, seu livro de memórias recém-publicado (Sesi–SP, 143 págs.), o escritor, jornalista e músico Cadão Volpato narra uma conversa com um colega de trabalho que estava lendo A Menina Morta, de Cornélio Pena. “É um romance moderno”, o colega diz. “Nada acontece”. No que Cadão complementa, sem aspas, talvez se referindo à vida naquele início dos anos 1980, agora para o leitor de hoje: “E nada acontecia”.

A princípio, parece haver algo de errado na frase. Não dá para dizer que “nada acontecia” no período que mais ou menos coincide com a fundação do Fellini, uma banda independente e cultuada de São Paulo que tinha, além do próprio Cadão nos vocais, o baixista Ricardo Salvagni e os guitarristas Jair Marcos e Thomas Pappon. Era o início da redemocratização, com sua efervescência cultural e política tanto nos fatos públicos – da bomba no Riocentro à campanha das Diretas Já, do ocaso da censura ao boom da nova geração do rock – quanto nas expectativas, na imagem que o Brasil projetava para o próprio futuro social e institucional.

Mas essa estranheza é uma das qualidades do livro. Cadão não está falando apenas de um período histórico, nem apenas de uma banda de rock, nem apenas de um país. Toda boa autobiografia preserva a individualidade possível diante do que é mero contexto, ou mero clichê: o espírito do tempo sempre pronto para deformar a memória com imposições temáticas, ideológicas ou morais. Numa época em que o factual básico do passado está disponível online – há conteúdo interminável sobre a cultura brasileira dos 1980 no You Tube, por exemplo –, é preciso superar o pleonasmo de evocar um imaginário já bastante comum.

Trata-se de uma lição proustiana, a seu modo, que Cadão aproveita desde o título (uma brincadeira com À Sombra das Raparigas em Flor). Se a linguagem é naturalmente restrita ao evocar lembranças sensoriais e abstratas, que seja capaz de criar um objeto novo, cuja beleza também é nova. Sob as normas dessa reinvenção dá para dizer, sim, que o início da chamada década perdida foi tedioso – porque importa é a inquietude do autor diante do tédio, algo de sua personalidade e temperamento que não passa apenas por gatilhos externos. À diferença do que costumamos ver em histórias de roqueiros, nas quais o passado é sempre cheio de aventura e excessos, gerando anedotas divertidas sobre protagonistas e coadjuvantes então ou posteriormente famosos, o material de Cadão é menos direto, mais difícil de classificar.

Trecho inicial da minha coluna de estreia no Valor Econômico. Escreverei mensalmente sobre livros no caderno Eu&, que circula aos fins de semana. Íntegra do texto aqui, para quem é assinante ou fizer o cadastro.

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