Velhos

por Michel Laub

Microcontos de Dalton Trevisan em Pico na veia (Record, 239 págs.), Ah, é? (Record, 137 págs.) e 99 corruíras nanicas (L&PM, 112 págs.):

1.

O casal brigado, de costas. Longo silêncio. De repente o velho:

– Sua diaba. Para de ficar ouvindo o meu pensamento!

2.

O velho:

– Acordo às três da manhã. Daí começo a brigar.

– Com quem?

– Com a minha cabeça.

3.

Como dormir se, para os mil olhos da insônia, você só tem duas pálpebras?

4.

A velha:

– Por que você abre a boca, João, quando olha para cima?

– Não sou eu. É o queixo que cai.

5.

Enfim sós, e a velhinha toda meiguice:

– Mais um dia em que me arrependo de ter casado com você.

6.

– Sempre vaidoso, o meu velho. Primeiro me fez ir ao alfaiate. Estreitar um palmo na cintura da calça.

–Tão acabadinho, coitado.

– Agora vou ao sapateiro. Mais três furos no cinto.

– Será que desconfia?

– Bem iludido, o pobre. Daquela cama se levanta nunca mais.

7.

O velho em agonia, no último gemido para a filha:

– Lá no caixão…

–Sim, paizinho.

–…Não deixe essa aí me beijar.

8.

– Se um de nós faltar… ai, João…

– Durma, velha.

– …o que vai ser de mim?

9.

– Por que ele está demorando tanto?

Se pergunta no fim do dia a viúva inconformada, sondando tristinha pela janela.

10.

Olhinho perdido na janela, suspira o velho:

– O que será que o meu canarinho anda fazendo?