Os fins do arco-íris

por Michel Laub

No debate sobre discriminação, pregar a tolerância é o melhor caminho? Numa de suas provocações costumeiras, e citando o exemplo insuspeito de Martin Luther King, o filósofo esloveno Slavoj Zizek acredita que não. Segundo ele, a meta deveriam ser leis que concretamente protejam e emancipem grupos vitimados por religião, etnia, gênero e comportamento.

O problema seria mais de topo, digamos, do que de base. É um raciocínio atraente para a militância, pois dá a ela ferramentas e horizontes objetivos, em vez de limitar sua ação a apelos genéricos e cheios de coraçõezinhos na terra dos afetos de pelúcia.

Só que as coisas são mais complexas. Levado ao limite, e boas intenções à parte, o argumento ganha o sotaque autoritário que impõe condutas imunes a um dos preceitos da sociedade livre: o de que a lei surge do consenso (ou de um nível possível de consenso), e não o contrário (regras impostas de cima para baixo).

Melhor pensar que a democracia, sistema de maiorias feito também para proteger minorias, será mais saudável se cultivarmos valores – como a aceitação das diferenças – que tirem a noção de direito individual do campo formal/teórico. A história é triste e repetitiva ao mostrar que leis são inúteis quando não há prática social a sustentá-las.

Trecho de texto publicado na Folha de S.Paulo, 3/7/2015. Íntegra aqui.