Selvagens e eternos

por Michel Laub

Assisto a Os bons companheiros desde o seu lançamento, em 1990. A Cassino, desde o seu, em 1995. É dos poucos hábitos que mantive nestas duas décadas e meia em que deixei para trás tantas certezas sobre tantas coisas.

No ano em que se comemoram aniversários redondos dos dois clássicos de Martin Scorsese, as lições de ambos se renovam a cada reprise. A principal, que soa óbvia, mas não costuma ser seguida, é a de que a liberdade é o bem mais precioso do artista – e se apegar a ela é a melhor forma de lidar com as regras de um gênero ou tradição.

Em vez de ser uma sombra intimidadora, o longo cânone americano de filmes de máfia, cujos realizadores vão de Howard Hawks e William Wellman a Brian De Palma e Francis Ford Coppola, funcionou de maneira paradoxal aqui. Já que as possibilidades de exibir esse universo pareciam esgotadas, Scorsese resolveu trabalhar sem amarras – fazendo homenagens e emulando o virtuosismo dos mestres, sim, mas dando às suas crias um tom de irreverência selvagem.

Trecho de artigo publicado na Folha de S.Paulo, 19/6/2015. Íntegra aqui.