Desastre literal

por Michel Laub

Com o deslocamento da cultura visual da TV para a expressão escrita da internet, os índices de leitura no país devem ter dado um salto na última década e meia. Em termos de qualidade, porém, como sabe quem alguma vez entrou numa caixa de comentários de grande portal, o cenário está mais para desastre.

As causas não são difíceis de achar, e não estão apenas nas escolas. Vejam a Jornada de Literatura de Passo Fundo, cuja edição 2015 acaba de ser cancelada. A opção de governos, empresas e entidades que poderiam ajudar foi clara: em nome de uma economia mesquinha (o filme “Qualquer Gato Vira-Lata 2” custou mais que o dobro do que custaria o evento), abre-se mão de um dos poucos modelos vitoriosos que temos na formação de leitores.

Os exemplos poderiam seguir ao infinito: da “Pátria Educadora” que deixou de comprar livros às goteiras da Biblioteca Nacional, do fascínio por celebridades ignorantes aos “guias de lazer” que dão dicas sobre brechós e passeios com o pet, desconhecendo a hipótese de alguém preferir ler num sábado ou domingo, o futuro está contratado no que valorizamos no presente.

Pensei nas consequências desse desprezo à atividade intelectual ao saber que Antonio Prata, colunista da Folha, foi processado por um texto obviamente satírico (http://goo.gl/751HQj). Também ao acompanhar a polêmica em torno de “A mulher no trem”, peça do grupo Os Fofos Encenam suspensa depois de protestos pelo uso de “blackface” – o expediente de pintar de negro o rosto dos atores, que foi típico no teatro e cinema racistas dos Estados Unidos.

Publicado na Folha de S.Paulo, 5/6/2015. Íntegra aqui.