O que não se pode fazer a um gato

por Michel Laub

Wislawa Szymborska em Poemas (Companhia das Letras, tradução de Regina Przybycien):

Morrer – isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no entanto mudou.

(…)

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

(…)

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.

Explorações sob o tapete nada mostraram.

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos.

(…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada,

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas.

E nada de pular miar no princípio.