Karl Ove Knausgard dá uma real sobre poesia, mentiras etc.

por Michel Laub

Trecho de Um outro amor (Companhia das Letras, 585 págs., tradução de Guilherme da Silva Braga):

“Bastava abrir um livro e ler, e se os poemas se revelassem você os merecia, senão você não os merecia. Ser uma das pessoas a quem os poemas não se revelavam me perturbou em especial por volta dos meus vinte anos, quando eu ainda era cheio de ilusões a respeito de quem eu poderia ser. (…). Havia três maneiras possíveis de se comportar em relação a isso. A primeira era reconhecer a situação e aceitá-la. Nesse caso eu seria um homem absolutamente normal que levaria uma vida absolutamente normal e encontraria o significado dela onde quer que eu estivesse, e não em outro lugar (…) A segunda era negar tudo, dizendo para mim mesmo que o potencial existia e simplesmente não tinha sido realizado ainda, e assim viver uma vida de literatura, talvez como crítico, talvez como professor universitário, talvez como escritor, pois era totalmente possível se manter nesse mundo sem que a literatura jamais se revelasse. Era possível escrever uma tese inteira sobre Hölderin, por exemplo, descrevendo os poemas, discutindo os temas abordados e a maneira como se manifestavam na sintaxe, no vocabulário, no emprego de imagens, era possível escrever sobre a relação entre os elementos gregos e cristãos, sobre o papel da natureza nos poemas, sobre o papel do clima, ou ainda sobre as relações entre os poemas e a realidade político-histórica em que tinham sido escritos (…). Era possível escrever sobre a relação com os outros idealistas alemães, Goethe, Schiller, Hegel, Novalis, ou ainda sobre a relação com Píndaro nos poemas tardios. Era possível escrever sobre as traduções pouco ortodoxas de Sófocles, ou ainda ler os poemas à luz do que Hölderin tinha escrito acerca da própria poética em correspondências. Também era possível ler os poemas e contrastá-los com a interpretação oferecida por Heidegger e Adorno em função da história de Hölderin. Também era possível escrever sobre toda a história da recepção, ou sobre a história da tradução. Tudo isso era possível sem que os poemas de Hölderin jamais se revelassem. O mesmo podia ser e naturalmente era feito com todos os outros poetas. Também era possível, com uma certa disposição para o trabalho árduo, escrever poemas próprios mesmo sendo uma das pessoas a quem a poesia não se revelava; a diferença entre um poema e um poema que apenas parece ser um poema é percebida somente por um poeta. Entre esses dois métodos, o primeiro, a aceitação, era o melhor, mas também o mais difícil. O segundo método, a negação, era o mais fácil, mas também era o menos confortável, porque a revelação de que tudo o que se fazia não tinha valor nenhum também estava muito próxima. E uma vida literária baseia-se justamente na busca pelo valor. O terceiro método, que consistia em abandonar toda essa problemática, era portanto o melhor. Não existem coisas elevadas. Não existem revelações privilegiadas. Nada é melhor ou mais verdadeiro do que qualquer outra coisa. O fato de que os poemas não se revelavam para mim não queria necessariamente dizer que eu era mais baixo do que ninguém, ou que meus escritos teriam necessariamente um valor menor. As duas partes, tanto os poemas que não se revelavam como os meus escritos, eram fundamentalmente a mesma coisa, ou seja, texto. Se meus escritos fossem mesmo piores, o que obviamente eram, não seria correto afirmar que esse era o resultado de uma situação irreparável em que me faltava alguma coisa, mas apenas de uma situação que podia se alterar através de trabalho árduo e do acúmulo de experiências. Até certo ponto, é evidente que conceitos como talento e qualidade continuavam sendo incontornáveis, porque afinal as pessoas não escrevem todas com o mesmo nível de desenvoltura. O mais importante era que não existisse um abismo, que não houvesse nada intransponível, entre os que tinham e os que não tinham; entre os que viam e os que não viam. Em vez disso, era apenas uma questão de gradação contida em uma mesma escala. Era um pensamento reconfortante [que] tinha reinado soberano na crítica artística e em círculos universitários desde a metade dos anos 1960 até hoje. Os conceitos que eu tinha adotado e que eram uma parte tão óbvia de mim que eu nem ao menos sabiam que eram conceitos, e que portanto eu não poderia expressar mas apenas sentir, e que no entanto tinham me norteado mesmo assim, eram os conceitos do romantismo na forma mais pura, ou seja, conceitos antiquados. As poucas pessoas que tinham uma abordagem séria frente ao romantismo ocupavam-se dos elementos que mantinham relações com os conceitos de nossa época, como a fragmentação e a ironia. Mas para mim a questão não era o romantismo em si – se eu sentia afinidade em relação a uma época qualquer era pelo período barroco, cheio de espaços, alturas e profundezas vertiginosas, ideias sobre a vida e o teatro, os espelhos e o corpo, a luz e a escuridão, a arte e a ciência, o que exercia uma atração mais forte sobre mim –, mas o sentimento que eu tinha de estar longe do essencial, longe do mais importante, do aspecto mais profundo da existência. Se esse era um sentimento romântico ou não, para mim não tinha a menor importância. Para aplacar a dor que essa nova situação provocava eu me defendi usando as três maneiras possíveis, e por longos períodos cheguei a acreditar nelas, em especial na última. Tentei me convencer de que a ideia de que a arte era o lugar onde ardiam as chamas da beleza e da verdade, o último lugar onde a vida podia mostrar o verdadeiro rosto, não passava de um equívoco. Mas volta e meia ela ressurgia. Não como um pensamento, mas como um sentimento imune a qualquer tipo de argumentação. Mas eu sabia muito bem que era tudo mentira, que eu estava enganando a mim mesmo.”