Por que viúvos gostam de ópera

por Michel Laub

Julian Barnes em Altos voos e quedas livres (Rocco, 127 págs., tradução de Léa Viveiros de Castro), livro sobre balonismo, fotografia e o luto por sua mulher Pat Kavanagh:

“Durante a maior parte da minha vida, essa tinha me parecido ser a forma menos compreensível de arte. Eu não compreendia realmente o que estava acontecendo (apesar de ler atentamente os resumos da história); tinha um certo preconceito contra aqueles piqueniqueiros de smoking que pareciam ser donos do gênero; mas acima de tudo eu não conseguia deixar minha imaginação voar. Óperas parecem peças inteiramente implausíveis e mal construídas, com personagens berrando ao mesmo tempo na cara um dos outros. O problema inicial – o de compreensão – foi resolvido pela introdução de traduções projetadas acima do palco. Mas agora, na escuridão de um auditório e na escuridão do luto, a implausibilidade do gênero de repente desapareceu. Agora parecia natural que as pessoas entrassem no palco e cantassem umas para as outras, porque a música era uma maneira mais primitiva de comunicação do que a palavra falada – ao mesmo tempo mais alta e mais profunda. Em Don Carlo, de Verdi, o herói acabou de conhecer sua princesa francesa na floresta de Fontainebleau e já está de joelhos cantando: “Meu nome é Carlo e eu te amo”. Sim, pensei, está certo, é assim que a vida é e deveria ser, vamos nos concentrar no que é essencial. É claro que a ópera tem um enredo (…), mas sua função principal é levar os personagens o mais rápido possível ao ponto em que eles possam cantar a respeito de suas emoções mais profundas. A ópera vai direto ao ponto, assim como a morte (…). Aqui estava meu novo realismo social.”