A verdade sobre quem gosta muito de futebol

por Michel Laub

Nick Hornby em Febre de bola (Companhia das Letras, 351 págs., tradução de Christian Schwartz):

“‘No que você está pensando?’, ela pergunta. Então eu minto. Eu não estava pensando no Martin Amis ou no Gérard Depardieu ou no Partido Trabalhista. Mas é que gente obsessiva não tem escolha; é obrigada a mentir em ocasiões como essa. Se falássemos a verdade sempre, não conseguiríamos preservar as relações com ninguém no mundo real. Acabaríamos esquecidos, sozinhos com nossos programas do Arsenal ou nossa coleção de discos de selo azul originais da Stax ou nossa criação de spaniels, e os dois minutos diários sonhando acordado se tornariam cada vez mais e mais longos, até que perdêssemos nossos empregos e parássemos de tomar banho e fazer a barba e comer, e acabássemos largados sobre nossos próprios dejetos, voltando repetidamente a fita de vídeo na tentativa de decorar cada comentário, incluindo a análise lance a lance do David Pleat, do jogo daquela noite de 26 de maio de 1989. (Acham que eu tive que consultar essa data? Rá!) A verdade é a seguinte: durante uma parte assustadoramente grande de um dia comum, sou um retardado.”