Pai, filho, um avião em pane e por que alguém vai parar no Xingu

por Michel Laub

Trecho de Nove noites, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 171 págs.):

“A ideia era irmos até a Tracajá e de lá até Goiânia, onde deixaríamos o mecânico e seguiríamos de volta para São Paulo. Mas meu pai logo avisou que, ao contrário do planejado, desceríamos na Suiá Miçu, uma fazena gigantesca, um verdadeiro mundo, na época sob o controle acionário do Vaticano, segundo o que diziam, a meio caminho entre o Xingu e o rio das Mortes. Perguntei ao meu pai o que era aquele barulho de uma coisa estalando na cauda do avião. Ele disse que devia ter batido contra um pássaro qualquer e me mandou calar a boca. Não se falou mais durante a viagem. Só ao nos aproximarmos da Suiá Miçu, quando a pista, talvez a melhor da região, já aparecia na distância, foi que meu pai se virou para o mecânico e para mim e anunciou que ia desligar os motores para que o combustível ficasse nos tanques na ponta das asas. Pediu que não nos preocupássemos. Recomendou ao mecânico que abrisse a porta antes de o avião tocar o solo e disse que, assim que batêssemos no chão, nós dois devíamos nos atirar, porque o avião poderia explodir. Larguei o gibi e arregalei os olhos. Eu ainda não sabia o que tinha acontecido. Ao sair da Santa Cecília, quando tentava decolar, meu pai fez uma barbeiragem. Contava desembaçar o para-brisa e não percebeu que tinha saído da pista e entrado na floresta. (…) Já estava com o trem de pouso avariado (…). Os fios das antenas de rádio foram cortados pelas copas das árvores. O barulho na cauda do avião era dos fios que batiam ao vento (…). Agora, o bimotor descia planando, com os motores desligados e o bico levantado. Não me lembro se o mecânico abriu ainda no ar a porta sobre a asa. Eu estava em pânico. O avião bateu de barriga no chão, já que o trem de pouso estava solto. A asa esquerda foi arrancada com o impacto, e acabamos entrando de bico num barranco de terra do lado esquerdo da pista. Ninguém se jogou. Ninguém se machucou O mecânico desceu. Eu desci com as pernas bambas. Só quando já estava no chão é que comecei a chorar e a gritar, numa crise histérica, pedindo ao meu pai que saísse do avião (…). Na minha lembrança, ele saiu de lá sorrindo. Era um sorriso amarelo, talvez de alívio, talvez para encobrir o medo. Logo chegaram os carros do administrador da fazenda, que, depois de constatar que ninguém tinha se machucado, nos convidou para almoçar, me deu um calmante e mandou um dos empregados nos levar até um povoado próximo, onde poderíamos pegar um táxi aéreo. Levamos umas quatro horas, se não mais, por uma estrada de terra, e o único avião disponível no pequeno campo de pouso era um fatídico Bonanza, com sua cauda em V, reputado pela falta de estabilidade. Nunca vomitei tanto como naquela viagem até Goiânia, onde dormi por vinte e quatro horas ininterruptas, graças em parte ao efeito do calmante (…). No dia em que acordei, a manchete dos jornais era a tragédia de um avião da Varig que se incendiara misteriosamente na rota de descida para Orly, matando boa parte dos tripulantes e todos os passageiros, à exceção de um (…). De alguma forma associei a grande tragédia ao nosso pequeno acidente, como se houvesse alguma conexão incompreensível entre os dois. O Xingu, em todo caso, ficou guardado na minha memória como a imagem do inferno. Não entendia o que dera na cabeça dos índios para se instalarem lá, o que me parecia de uma burrice incrível, se não um masoquismo e mesmo uma espécie de suicídio. Não pensei mais no assunto até o antropólogo que por fim me levou aos Krahô, em agosto de 2001, me esclarecer: ‘Veja o Xingu. Por que os índios estão lá? Porque foram sendo empurrados, encurralados, foram fugindo até se estabelecerem no lugar mais inóspito e inacessível, o mais terrível para a sua sobrevivência, e ao mesmo tempo a sua única e última condição. O Xingu foi o que lhes restou.’”