O que mais assusta um animal e um diretor de zoológico

por Michel Laub

Trecho de A vida de Pi, de Yann Martel (Nova Fronteira, 419 págs., tradução de Maria Helena Rouanet):

“Na natureza, os bichos levam uma vida de compulsão e necessidade, dentro de uma hierarquia social impiedosa, num habitat em que o medo existe em altíssima escala e a comida é escassa, o território precisa ser constantemente defendido e os parasitas eternamente suportados. Qual o significado da liberdade num contexto como esse? Na prática, os animais não são livres no espaço e nem no tempo, e tampouco nas suas relações. Em teoria (…) um animal pode perfeitamente pegar suas coisas e ir embora, desacatando todas as convenções sociais e os limites da própria espécie. Isso, porém, é muito mais improvável de acontecer que para um membro da nossa espécie; um comerciante, digamos, com todos os vínculos habituais – família, amigos, sociedade – pode largar tudo e abandonar a própria vida, levando apenas a roupa do corpo e uns trocados no bolso. Se um homem, a mais ousada e inteligente das criaturas, não vai ficar vagando de um lugar a outro, sem conhecer ninguém, sem se ligar a ninguém, por que um animal, que é muito mais conservador por temperamento, faria isso? Porque é isso que eles são: conservadores (…). A mais ínfima das mudanças é capaz de deixá-los aborrecidos. Na verdade, querem que tudo seja do mesmo jeito, dia após dia, mês após mês. Para eles, surpresas são algo extremamente desagradável. Dá para perceber isso nas suas relações espaciais. Um animal habita o seu espaço, seja num zoológico ou na natureza, do mesmo jeito que as peças de xadrez se movem pelo tabuleiro – de forma significativa. Não existe mais acaso, ou mais “liberdade” no local de moradia de um lagarto, de um urso ou de um veado que na localização de um cavalo no tabuleiro de xadrez. Ambos falam de padrões e propósitos. Na natureza, os animais se aferram a determinadas trilhas por razões prementes, estação após estação. Num zoológico, se um animal não está no seu lugar normal ou na sua postura habitual na hora de costume, tem alguma coisa errada. Pode ser o simples reflexo de uma alteração ínfima no ambiente ao seu redor. Uma mangueira enrolada, deixada ali por um funcionário, causou uma impressão ameaçadora. Formou-se uma poça que está incomodando o animal. Uma escada está fazendo sombra. Mas também poderia ser algo mais. Na pior das hipóteses, poderia ser aquilo que o diretor de um zoológico mais teme: um sintoma, o prenúncio de que há um problema à vista, um motivo para inspecionar o esterco, interrogar o zelador, convocar o veterinário. Tudo isso porque a cegonha não está exatamente onde costuma ficar.”

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