Deixando o infinito cuidar de si mesmo

por Michel Laub

Salman Rushdie sobre os efeitos de sua condenação à morte pelo Irã – em virtude do romance Os versos satânicos, considerado blasfemo – no livro de memórias Joseph Anton (Companhia das Letras, 614 págs., tradução de Donaldson M. Garschagen e José Rubens Siqueira):

“Ainda se lembrava do que Borges tinha escrito sobre os limites da fotografia. A fotografia só via o que estava diante dela, e por isso um fotógrafo jamais conseguiria captar a verdade dos grandes pampas argentinos. ‘Darwin observou, e Hudson corroborou’, Borges escreveu, ‘que essa planície, famosa entre as planícies do mundo, não deixa uma impressão de vastidão em alguém que olha do chão, ou a cavalo, uma vez que seu horizonte é o horizonte do olhar e não vai além de cinco quilômetros. Em outras palavras, a vastidão não se encontra em cada visão dos pampas (que é o que a fotografia é capaz de registrar), mas na imaginação do viajante, em sua lembrança dos dias de marcha e da previsão de muitos dias mais’. Só a passagem do tempo revelava a vastidão infinita dos pampas, e uma fotografia não podia captar duração. Uma fotografia dos pampas mostrava nada mais que um grande campo. Não era capaz de captar a monotonia que produz delírios ao viajar, viajar e viajar através daquele vazio imutável, sem fim.

À medida que sua nova vida [de Rushdie] se estendia pelo quarto ano, ele se sentia sempre como esse viajante imaginário de Borges (…). O filme Feitiço do tempo ainda não havia sido lançado, mas, quando ele o assistiu, identificou-se intensamente com o protagonista, Bill Murray. A ilusão de mudança se desfazia com a descoberta de que nada havia mudado. A esperança apagava a decepção, as boas notícias, as ruins. Os ciclos de sua vida se repetiam incessantemente. Se soubesse que seis anos mais de isolamento se estendiam à sua frente, muito além do horizonte, então a demência realmente teria se estabelecido. Mas ele só enxergava até a beira da terra, e o que havia além parecia um mistério. Ele cuidou do imediato e deixou o infinito cuidar de si mesmo.

Seus amigos lhe disseram depois que viram o fardo esmagá-lo lentamente, deixando-o mais velho do que era. Quando a coisa enfim terminou, uma espécie de juventude voltou, como se o fim do infindável tivesse de alguma forma feito o tempo voltar ao ponto em que havia entrado no vórtice. Ele acabaria parecendo mais jovem aos cinquenta do que parecera aos quarenta. Mas seus cinquenta anos ainda estavam dez anos à frente. E, nesse meio tempo, quando sua história era mencionada, muita gente ficava impaciente, irritada ou entediada. Não era uma época paciente, mas uma época de mudança rápida, na qual nenhum assunto prendia a atenção por muito tempo. Ele se tornou um incômodo para os empresários porque sua história atravancava o desejo que tinham de desenvolver o mercado iraniano, e para diplomatas que tentavam erguer pontes, e para jornalistas que, se não tinham nada para contar, ficavam sem notícias. Dizer que a imobilidade, a intolerável eternidade dela, é que era a notícia seria dizer uma coisa que as pessoas não queriam ou não iriam ouvir. Dizer que ele acordava todo dia com a casa cheia de estranhos armados, que não podia sair para comprar um jornal ou pegar um café, que a maioria de seus amigos e mesmo sua família não sabia o endereço de sua casa, e que ele não podia fazer nada, nem ir a lugar nenhum a não ser com a concordância de estranhos; que o natural para todo mundo, viajar de avião, por exemplo, era uma coisa que ele negociava constantemente; e que em algum lugar das redondezas, sempre, havia a ameaça de morte violenta, uma ameaça que, segundo as pessoas cujo trabalho era avaliar essas coisas, não havia diminuído absolutamente nada… era chato. Como? Ele ainda estava viajando pelos pampas e tudo era igual a antes? Bem, todo mundo tinha ouvido essa história e não a queria ouvir mais. Conte uma história nova, essa era a opinião geral, ou então, por favor, vá embora.”