Há algo de insuportavelmente triste num cruzeiro pelo Caribe

por Michel Laub

David Foster Wallace em sua reportagem/ensaio sobre uma viagem turística pelo Caribe, publicada em Ficando Longe do fato de já estar meio que longe de tudo (Companhia das Letras, 304 págs., tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari):

Algumas semanas antes (…), um rapaz de dezessete anos se atirou do convés superior de um meganavio (…), um suicídio. Segundo a versão noticiada, foi um caso adolescente de amor frustrado, um romance a bordo que terminou mal etc. Creio que em parte foi outra coisa (…). Existe algo de insuportavelmente triste num Cruzeiro de Luxo comercial. Como a maioria das coisas insuportavelmente tristes, parece incrivelmente esquivo e complexo em suas causas e simples em seu efeito: a bordo do Nadir – especialmente à noite, quando cessam as diversões organizadas, as gentilezas e o barulho animado no navio – eu senti desespero. Desespero é uma palavra que foi desgastada até se tornar banal, mas é uma palavra séria e estou usando-a com seriedade. Para mim, ela denota uma mistura simples – um estranho anseio pela morte combinado com um sentimento esmagador da minha pequenez e da minha futilidade, que se apresenta como um medo da morte. Talvez seja algo próximo daquilo que as pessoas chamam de pavor ou angústia. Mas é bem outra coisa. É como desejar morrer para escapar da sensação insuportável de compreender que sou pequeno e fraco e egoísta e que sem a menor dúvida vou morrer. É querer se atirar do navio (…). Eu, que antes desse cruzeiro nunca estivera no oceano, sempre associei o oceano com pavor e morte. Quando criança eu costumava decorar todo tipo de informação sobre mortes causadas por tubarões. Não apenas ataques: mortes. A morte de Albert Kogler em Baker Beach, Califórnia, em 1959 (Tubarão-Branco). A tripulação do USS Indianapolis transformada em banquete nos arredores das Filipinas em 1945 (muitas variedades, mas oficialmente se acredita que a maioria eram Tigres e Azuis) [5]; a série de incidentes envolvendo o maior-número-de-mortes-atribuídas-a-um-único-tubarão ao redor de Matawan/Spring Lake, Nova Jersey, em 1916 (Tubarão-Branco, novamente; desta vez pegaram um carcharias na baía de Raritan, Nova Jersey, e encontraram partes humanas in gastro (sei quais partes, e a quem pertenciam)). Na escola, acabei escrevendo três trabalhos diferentes sobre o trecho ‘O náufrago’ de Moby Dick, o capítulo em que o grumete Pip cai no mar e enlouquece por conta da imensidão vazia onde se vê flutuando. E hoje, quando dou aulas, sempre apresento o assustador ‘O bote’ de Crane e fico muito transtornado quando a garotada acha o conto chato ou meramente aventuresco: quero que sintam o mesmo pavor medular do oceano que sempre senti, a intuição do mar como o nada primordial (…), profundezas habitadas por coisas gargalhantes cravejadas de dentes avançando até você na velocidade de uma pena caindo. Enfim, essa é a origem do fetiche atávico por tubarões que, preciso admitir, voltou junto com uma vingança longamente reprimida contra esse Cruzeiro de Luxo [6], e fiz tanto alarde sobre a única (provável) nadadeira dorsal que enxerguei a estibordo que meus companheiros da Mesa 64 do jantar acabaram tendo que me mandar, com o maior tato possível, calar minha boca de uma vez (…).

Notas:

[5] Isso é tudo de memória. Não preciso de livro nenhum. Ainda consigo lembrar os nomes de todas as vítimas fatais do Indianapolis que foram documentadas , incluindo alguns números de série e cidades natais. (Centenas de homens perdidos, 80 classificados como vítimas de tubarão, 7-10 de agosto de 1945; o Indianapolis havia acabado de entregar Little Boy na ilha de Tinian, para ser entregue em Hiroshima, para deleite dos ironistas. Robert Shaw, como Quint, recordou o incidente inteiro em Tubarão, de 1975, um filme que, como se pode imaginar, foi como pornografia fetichista para mim aos treze anos).

[6] E vou admitir que na primeiríssima noite do 7NC perguntei à equipe do restaurante Cinco-Estrelas Caravelle do Nadir se haveria alguma chance de eu talvez conseguir um balde de entranhas au jus para tentar atrair tubarões a partir da balaustrada dos fundos do último convés, e que esse pedido pareceu a todos, do maître em diante, perturbador e até mesmo perturbado, e acabou se mostrando um sério faux pas jornalístico, porque tenho quase certeza de que (…) esse foi o motivo principal por trás da interdição do acesso a coisas como a cozinha do navio, empobrecendo assim o escopo sensório deste artigo (…).

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