‘Cosmópolis’, de David Cronenberg

por Michel Laub

Publicado na revista Bravo, setembro/2012:

Com a adaptação de livros difíceis no currículo, caso de Almoço nu (William Burroughs) e Crash (J.G. Ballard), David Cronenberg enfrentou um desafio que parecia mais simples em Cosmópolis. O minimalismo do romance de Don DeLillo, repleto de diálogos diretos e descrições plásticas, em teoria ajuda o cineasta que procura trechos “externos” para tirar dali uma narrativa visual.

Mas é uma impressão enganosa. De todos os autores americanos em atividade, DeLillo talvez seja o melhor criador de atmosferas, algo que num texto pode ser engendrado nas frestas de um estilo transparente, que dialoga com a imaginação do leitor por meio de alusões e lacunas. A qualidade de seus romances está menos na trama que em evocações bastante literárias, feitas de nuances de tom, ritmo e melodia da prosa. “Preparação que ele adquiriu num deserto, setecentos anos antes de nascer”, diz um trecho de Cosmópolis. “Ali havia uma história, um folclore denso de tempo e destino”, informa outro. Tente fazer isso aparecer na tela.

A dificuldade se estende a todos os elementos do filme, do cenário à composição psicológica. No livro, por exemplo, a limusine do protagonista Erick Parker é descrita de forma hiperbólica, o que faz algumas de suas caraterísticas mitificadas – como o tamanho – diluírem a claustrofobia de uma história quase toda passada em alguns metros quadrados. No filme, temos apenas um carro: não há como um banco de três lugares, um frigobar ou um capô parecerem mais do que isso.

Algumas vezes o impasse é insolúvel: a riqueza que esperaríamos de um superbilionário como Parker – seus modos, roupas e aparelhos eletrônicos, tudo tão estranhamente descrito por DeLillo – não escapa de uma caracterização comum, assim como as imagens dos protestos anticapitalistas, sem impacto para quem já cansou de vê-las em telejornais. Em outras, o diretor consegue soluções notáveis por meio de recursos cinematográficos: o efeito do silêncio no interior do carro, o nonsense a sério do check up médico, o visual entre sonho e pesadelo da barbearia, a atuação de Paul Giamatti.

Ao final, o saldo é mais positivo que negativo, o que em muito se deve ao registro – já existente no livro – um tanto surreal. Como DeLillo, Cronenberg é um tipo ambíguo de moralista, que desconfia do progresso e da tecnologia sem deixar de ter certo fascínio por ambos. Cosmópolis usa a aparente falta de lógica do sistema financeiro para voltar ao tema. E seu principal acerto é evitar tratá-lo de forma direta, como faria uma narrativa panfletária ou sem ousadia.