Uma dramaturgia nada clássica

por Michel Laub

Publicado no blog da Companhia das Letras:

No último encontro que tive com a querida, generosa e talentosa Christiane Riera, que morreu de câncer no mês passado, conversamos sobre um ensaio que ela escreveria para a revista que eu estava editando. A ideia era fazer um paralelo entre a experiência pessoal de um doente e a tradição histórica da dramaturgia, partindo de um exemplo ao mesmo tempo evidente e inusitado: House.

Chris comentava que algo da rotina do tratamento, da relação com os médicos e do ambiente dos hospitais parecia dever à série televisiva, e não o contrário, como seria natural. Não sei até onde ela exploraria o argumento – do texto só ficaram anotações e o esboço de alguns parágrafos –, mas a reflexão sobre os vetores de influência, vida na arte ou arte na vida, seria um começo interessante. Que poderia se estender por outro vetor, o da arte na arte, até porque House não caiu do céu: estrelada por um médico misantropo cuja tarefa é diagnosticar pacientes com sintomas extravagantes, cada um de seus episódios atualiza – com o cientificismo, as fobias e os dilemas éticos de hoje – modelos como o do velho romance policial. Ou do romance psicológico, cujo ritmo se apoia em camadas de informação que vão se sobrepondo, fatos/segredos revelados por um protagonista que investiga outros personagens ou a si mesmo.

Convenções narrativas giram em torno de linguagem e estrutura, e também de temas. Do ideal estético clássico ao registro histórico realista, dos castigos divinos no teatro grego ao amor romântico suicida, de Dante e Shakespeare a Proust e Beckett, a grande arte sempre falou direta ou subliminarmente da precariedade da vida, do tempo que se esvai rumo a algo que não conhecemos – a morte, em suma, cuja presença está sempre por trás de representações da enfermidade. Não é assim porque os artistas decidiram, mas porque a realidade é: crentes, ateus, otimistas, cínicos, todos vivemos diariamente o que Susan Sontag chamou, no clássico A doença como metáfora, de “dupla cidadania” entre “reino dos sãos” e “reino dos doentes”, na qual cedo ou tarde precisaremos usar o “passaporte ruim”.

Se artistas são pessoas como as outras, ao menos na ignorância e fascínio diante da morte, o trabalho que produzem tem sempre algo da perspectiva – real ou potencial, não importa – de um doente. No ótimo O imperador de todos os males, uma “biografia do câncer” que se estende por ciência, história, política, crônica social e linguagem, Siddhartha Mukherjee diz que todo paciente começa como um narrador que confessa sua história: “Nomear uma doença é descrever certa condição de sofrimento – é um ato literário antes de ser um ato médico”. Na via oposta, pode-se acabar existencialmente preso a simbolismos que começam na linguagem: quando o tratamento do câncer é chamado de “guerra”, rotula-se esse paciente como um soldado que precisa ser corajoso e manter o ânimo. Daí a culpá-lo por uma eventual derrota, como se ele não tivesse feito esforço suficiente para viver, é um passo lógica e moralmente curto.

Tais metáforas, mostra Sontag, são frutos de valores históricos. A associação entre tuberculose e poesia no século XIX, por exemplo, é uma resposta ao conservadorismo vitoriano, ou desdobramento dele. O que seria impensável nos menos heroicos anos 1980, quando surge a AIDS e a carga punitiva cristalizada num de seus primeiros apelidos, “peste gay”. Hoje há uma espécie de híbrido entre os extremos romântico e pragmático: cultuando a forma física (dietas, ideal apolíneo de beleza) e uma certa relação entre inteligência e neurose (nada é menos popular na TV, na publicidade e nas redes sociais que a antiga “normalidade” de comportamento), nosso tempo é contraditório quando avalia o desvio dos padrões de saúde. E, como consequência, os artistas que os representam. Do ponto de vista científico, nenhum destes males traz menos ou mais capacidade criativa, mas faça o teste: há mais sugestão de “alma literária” na depressão de David Foster Wallace ou na psoríase de John Updike? Nas internações psiquiátricas de Lima Barreto ou na úlcera que Nelson Rodrigues tratava como “gata de luxo”?

Palavras fazem sentido, e Chris também pretendia escrever – ecoando os ensaios finais de Christopher Hitchens, outra vítima de câncer – sobre a inexatidão de ditados como “o que não mata engorda”. O que ela chamou de “dramaturgia nada clássica”, protagonizada por uma doença caótica surgida em momentos e locais aleatórios, em nada se relaciona com os elementos que nos acostumamos a identificar numa narrativa – a organização em causas e efeitos, as jornadas de aprendizado e redenção. Com sinceridade comovente, ela só via algum paralelo entre a vivência do “corpo dilacerado” e uma definição de tragédia parafraseada de Aristóteles: “Algo que aproxima e distancia ao transmitir compaixão e horror ao mesmo tempo”. No caso de Chris, a lucidez e a coragem surgidas dessa experiência apenas reforçaram minha antiga – e agora eterna – admiração.