O pôquer segundo uma profissional

por Michel Laub

Trechos do diário de Maria Eduarda Mayrinck publicado na edição de maio da Piauí (integra aqui):

Metagame – “A diferença entre um jogador top e aquele que joga ‘por diversão’ ou mesmo um profissional de limites médios pode ser medida pelas camadas de conhecimento do oponente e de si mesmo exigidas no pôquer – o chamado ‘metagame’. E este só os grandes alcançam. Primeira camada: eu estou jogando contra você, e eu sei o quanto você sabe jogar. Segunda camada: eu também sei que você sabe que eu sei o quanto você sabe. Terceira: como eu sei que você sabe que eu sei o quanto você sabe, eu também sei que você sabe o quanto eu sei que você sabe que eu sei de você. E assim por diante.”

Roupa – “Jogador de pôquer usa a roupa que quiser – pode estar de chinelo, moletom, não importa. Muitos sequer tomam banho – eca. Todos jogam superagasalhados porque faz um frio polar nas salas de pôquer. Eu só uso óculos escuros quando tem tubarão muito forte na minha mesa, daqueles que conseguem ver minha alma pelos meus olhos. De resto, não uso. Tampouco uso iPod, como muitos fazem. Em matéria de etiqueta só é malvisto você trazer comida gordurosa para a mesa e comer com as mãos. Você acabaria lambuzando as cartas, que por sinal são trocadas a cada sessenta minutos. Em compensação, barras de cereais e qualquer outra guloseima fazem parte da rotina de quem fica sentado sem arredar o pé por horas.”

Nacionalidades – “Quem joga mais alto ainda costuma ter a viagem toda bancada, tudo de primeira classe – em alguns casos o jatinho particular do cassino vai te buscar onde você estiver. Acho que apenas um brasileiro, carioca, se encaixa nesse seleto grupo. Os demais são quase todos asiáticos, pois é da Ásia que vem o dinheiro mais pesado. Na outra ponta, basta sentar um russo ou um francês numa mesa de oito ou nove lugares que a lista de espera do jogo se torna imensa e os tubarões começam a nadar em volta (tubarão = jogador bom). Deve ser algo genético a determinar que os russos e franceses sejam, no geral, ruins/péssimos no pôquer. Ou, pelo menos, esse é o conceito.”

Gorjetas – “O carinha que cuida da sala de pôquer do Aria, o novo cassino daqui, telefonou avisando que o jogo que eu gosto está começando. Damos gorjeta o ano inteiro para esses funcionários nos manterem informados. Subo na minha Vespa e em cinco minutos estou sentada na mesa, rindo com os outros jogadores e me preparando para um longo dia de pôquer. Se você não chega rápido, não consegue mais sentar e pode demorar umas vinte horas para conseguir vaga numa mesa boa – mas até lá os jogadores mais fracos já cansaram e foram embora.”

Bankroll – “Avaliar o seu jogo pelo resultado de uma única sessão é coisa de amador. A vida do jogador profissional é a soma de todas as sessões de um ano ou de uma carreira. Saber administrar o seu bankroll de forma a não quebrar. Bankroll (BR) é a soma que você destina para o seu pôquer. Isso não inclui o quanto você dispõe para pagar contas, ir ao cinema, viver. É preciso ser bastante organizado para não atravessar fronteiras e o melhor jeito de fazer isso é nunca arriscar em uma só sessão mais de 10% do seu BR. Nada simples. Eu, por exemplo, separo 30% para o pôquer. De nada me serviria ter uma fortuna presa em investimentos que não podem ser sacados amanhã. Liquidez é o nome do jogo.”

Tubarões e peixes – “No fundo, uma mesa de pôquer funciona um pouco como o ciclo natural das espécies. Os tubarões rondam os peixes porque sem o peixe o jogo não forma, e tubarão esperto sabe que sempre deve tratar bem os peixes: ser simpático, educado, rir das piadas, tudo para manter o cara voltando sempre. Ao longo do caminho, alguns tubarões terminam se mordendo. Natureza do jogo.”

Roleta de cartão de crédito – “Não jogo nenhum jogo de cassino – nem roleta, nem dados, nem blackjack. Não gosto de nenhum jogo no qual eu não tenha uma vantagem matemática calculada. No pôquer você não joga contra o cassino, e sim contra oponentes. Até os espaços físicos são separados: nos cassinos, as salas reservadas ao pôquer são independentes dos salões principais da casa. O máximo que faço em matéria de jogos de azar é uma ‘roleta de cartão de crédito’ com os amigos. Funciona assim: saímos para jantar, não importa se duas pessoas ou vinte, e no final todos colocam o cartão de crédito na mão do garçom. Ele embaralha os cartões escondidos atrás das costas, e vamos em ordem falando ‘Para de embaralhar; o terceiro cartão de cima pra baixo está salvo’ etc. etc. até sobrarem dois cartões na mão do garçom. A última pessoa a escolher fala ‘mão esquerda está salva’ ou ‘mão esquerda paga’ e a pessoa paga o jantar inteiro.”

Amigos – “Por causa do pôquer viajei um total de 112 mil milhas só em 2010. Marquei encontro em Notting Hill com amigos que adoro. Uma é a americana Vanessa, recém-formada por Yale (…). Miranda é sua namorada há dois anos – professora do ensino médio em Nova York, largou tudo para correr o mundo com Vanessa, que ganhou, literalmente, todos os torneios mais importantes do circuito de pôquer internacional em 2009 e 2010. Ela chegou aos 24 anos de idade tendo ganho uns 3 milhões de dólares. O outro amigo é o Joe, metade coreano, metade californiano, que mora no mesmo prédio que eu em Las Vegas. O Joe é do meu tamanho, 1,63 metro em dias bons, mais magro que eu, tenta apostar comigo sobre tudo – ‘Cem dólares que o sinal fica vermelho em quatro segundos, quer?’ – e fez um dos blefes mais famosos e mais caros do pôquer, valendo 2 milhões de dólares (…) E essa é uma das coisas de que mais gosto no pôquer: as pessoas. Elas não julgam. Julgam só no pano, na mesa. De resto, querem é paz e sossego (…) Querem debater par de valetes, ou ás e rei, querem rir e querem apostar… apostar alto.”

Começo – “Hoje moro entre o Rio e Las Vegas e vivo disso. Minha família no início detestou, mas quando fiz uma apresentação para eles mostrando gráficos, dando explicações da diferença entre pôquer e jogos de cassino, eles começaram a entender e a me apoiar. Hoje são meus maiores fãs. Comecei a jogar nove anos atrás, fazendo um depósito inicial de mil dólares. Desde então, já ganhei mais de 1 milhão de dólares, mas isso não significa que eu tenha 1 milhão de dólares – eu sempre reinvisto tudo em mim, nos amigos, nos meus negócios de pôquer, no meu site, pago todos os meus impostos certinho e acabo só andando com uns trocados no bolso.”

Ganhos e perdas – “Meu namorado, que começou na carreira com um depósito de 200 dólares, já ganhou mais de 6 milhões. Mas ele também já perdeu perto de 100 mil dólares numa noite. E ganhou o dobro em outra ocasião. Eu mesma terminei o mês passado com um passivo de 1,9 mil dólares, o que não me assusta, porque está dentro dos meus limites. A vida toda é uma longa sessão – então pode haver meses em que o saldo é negativo. Importante é que o saldo seja positivo ano a ano, senão você quebra e não joga mais. No meu dia a dia sou impulsiva, derramada, penso pouco antes de agir. No pôquer, sou calculista e racional.”

Treino – “Como se treina para jogar pôquer? Tem mil maneiras. Primeiro e mais importante, é preciso jogar. Jogo horas infinitas no computador, pelo menos seis mesas ao mesmo tempo, às vezes chegando a 24. Meu máximo foram 32 mesas simultaneamente. Mas não valeu. Joguei feito robô, não pensava, só agia. É um ritmo insano. Tenho dois monitores ligados no micro, além da tela do próprio computador. As mesas de pôquer ficam expostas nos monitores, enquanto reservo a tela do micro para vídeos do YouTube, músicas do iTunes e o papo aberto com meu estábulo de onze ‘cavalos’ no Skype. Chamamos de ‘cavalo’ o jogador que joga para outro jogador. Os meus jogam para mim online, com o meu dinheiro. O risco é todo meu. Se eles lucram, ficam com 35% do que ganham e eu embolso o resto. Alguns ‘cavalos’ já estão comigo há tanto tempo que faturam 45% ou mais, mas cada caso é um caso. Também tenho um sócio no negócio, além de duas pessoas da minha absoluta confiança que administram os valores movimentados. Isso porque eu não quero gerenciar o que cada um faz, joga, ganha, perde. Tampouco tenho tempo para cuidar de cada um pessoalmente.”

Estábulo – “Nunca tive a intenção de ter um estábulo tão grande – mas foi crescendo, crescendo e cá estamos. Este mês estou testando dois ‘cavalos’ novos. Todos sabem que é proibido ter ego no estábulo, ninguém deve reclamar comigo sobre nada. Se estão com problemas, procuram meus administradores. Só apareço de vez em quando, para dar uma força e um gás no time, mas no geral deixo correr solto. Apenas faço questão que me mandem mãos interessantes para analisarmos juntos, ou para que eu estude sozinha.”

Preparação para o Mundial – “Estou tentando jogar entre mil a 2 mil mãos por dia. Para chegar a esse número, basta jogar entre dez e catorze mesas ao mesmo tempo. Em cada mesa você opera uma média de 55 mãos por hora, o que equivale a um dia de trabalho normal como todo mundo (seis a oito horas de trabalho diário). A meta sempre é ganhar, mas o que me interessa no momento é me testar em diversas situações para, depois, analisar o conjunto com a ajuda de um simulador de mãos. Qual a melhor forma de induzir o adversário a fazer apostas do tamanho que eu quero e como levar meu oponente ao erro são coisas que eu treino sem parar, e o único jeito de treinar é jogando.”

Estratégia – “Joguei 1 277 mãos hoje (…). Adoro quando homens têm preconceito com mulheres na mesa de pôquer (a proporção continua sendo de nove por um), porque isso automaticamente os coloca em desvantagem. Quem joga diferente contra uma mulher pelo fato de ela ser mulher vai cometer erros, então eu deixo. Nunca fiz o papel de gostosa na mesa, porque isso não tem nada a ver comigo; tampouco tentei fazer o tipo inteligente, para não dar bandeira do quanto de fato sei ou não sei. Quanto mais eu deixar a pessoa confusa, melhor será o meu dia. Converso estratégia de pôquer com não mais de dez pessoas no planeta, e basta. Você nunca sabe quando vai jogar contra a pessoa com quem você falou de estratégia, então melhor é ficar quieto.”

Sorte – “Como o pôquer tem um fator sorte a curto prazo, ele permite a qualquer um se tornar campeão mundial ‘acidental’ numa das modalidades da competição. Essa é, a meu ver, a maior beleza do jogo. Literalmente, qualquer um pode ganhar, basta o vento estar a favor. Se você tiver um par de damas na mão pode muito bem quebrar meu par de reis se eu bater uma dama e você fizer trinca. Embora, matematicamente, eu tenha 81% de chances de te derrotar.”

Suor – “O pôquer no mais alto nível exige muito da pessoa e da mente. Quando você desvenda essas camadas do metagame – as suas e as dos seus oponentes –, você passa a andar na ponta da faca mais afiada o tempo inteiro. É muito intenso. E tenso. Tem dias que fico encharcada de suor de tanto esforço, mesmo sem mover um músculo. Desvendar o que te coloca na frente dos seus oponentes a ponto de você saber o que ele vai fazer antes mesmo de ele saber, e como você vai induzi-lo a fazer exatamente o que você quer que ele faça… isso é uma arte para poucos e leva a vida inteira para aprender. Em dias muito iluminados, eu sinto essa ‘musa cantando em mim’ e levo o meu metagame para níveis bastante profundos, mas eu volto rápido para a superfície – preciso de ar. Como já senti essa ‘iluminação’, vivo correndo atrás da sensação novamente.”

Preparo físico – “Um bom preparo físico é crucial para a maratona, porque você vê muito jogador bom derretendo a partir da segunda semana do Mundial. O corpo não aguenta. Você começa a ficar doente por causa das longas horas, o choque entre o calor desesperador do deserto e o ar-condicionado ártico dos salões (nas salas chega a fazer 9 graus e já cheguei a usar cachecol e luva). Se você está sarado, come só comida orgânica sem açúcar, não bebe álcool, tem um bom preparo físico e se depara numa mão às onze da noite com alguém fora de forma, que há dias janta cachorro-quente e batata frita, quem vai tomar as melhores decisões? O outro começa a duvidar das jogadas que faz, perde a autoconfiança, cai num buraco negro. Me mantenho afiada. Treino com um personal, todas as manhãs, cedinho, não saio à noite durante o campeonato, não bebo, vivo uma vida de caserna. Nem telefone atendo para não me distrair. Já cheguei perto várias vezes, mas nunca ganhei um título. Ainda. Neste Mundial vou investir cerca de 70 mil dólares (em torneios meus, dos meus ‘cavalos’ e de jogadores de quem compro alguma porcentagem). David [namorado de Maria Eduarda] deve jogar em torno de 200 mil dólares. Mas o que todo mundo quer, no fundo, é ostentar a cobiçada pulseira de campeão mundial. Chorei quando o David ganhou a dele no ano passado.”

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