Uma doença e seu tempo

por Michel Laub

Trecho de O imperador de todos os males, de Siddhartha Mukherjee (Companhia das Letras, 634 págs., tradução de Berilo Vargas):

“A noção do câncer como aflição que pertence, paradigmaticamente, ao século XX lembra, como afirmou Susan Sontag de forma tão dogmática em seu livro A doença como metáfora, outra doença que também foi considerada paradigmática de uma época: a tuberculose no século XIX. Ambas (…) eram consideradas ‘algo obsceno – no sentido original da palavra: de mau agouro, abominável, repugnante aos sentidos’. Ambas exaurem a vitalidade; ambas prolongam o encontro com a morte; em ambos os casos, morrer, mais do que morte, define a doença.

Mas, apesar das metáforas paralelas, a tuberculose pertence a outro século. O ‘mal dos peitos’ (ou tísica) era o romantismo vitoriano elevado ao seu extremo patológico – febril, inexorável, arquejante e obsessivo. Era a doença dos poetas: John Keats fechando-se silenciosamente em direção à morte num pequeno quarto junto à escadaria da Trinità dei Monti, em Roma, ou Byron, romântico obsessivo, que se imaginava morrendo da doença para impressionar a amante. ‘A morte e a enfermidade são muitas vezes belas, como […] o brilho febril da tuberculose’, escreveu Thoreau em 1852. Em A montanha mágica, de Thomas Mann, esse ‘esplendor febril’ libera uma força criativa exaltada em suas vítimas – uma força esclarecedora, edificante, catártica, que também parece carregada da essência de sua era.

O câncer, diferentemente, está carregado de imagens mais contemporâneas. A célula cancerosa é uma individualista desesperada, ‘em todos os sentidos imagináveis, uma inconformada’, de acordo com o cirurgião e escritor Shervin Nuland. A palavra metástase, usada para descrever a migração do câncer de um lugar para outro, é uma curiosa mistura de meta e stasis – ‘além da imobilidade’, em latim –, um estado sem âncoras, parcialmente instável, que captura a instabilidade peculiar da modernidade. Se a tuberculose outrora matava suas vítimas por evisceração patológica (o bacilo aos poucos torna oco o pulmão), o câncer nos asfixia invadindo nossos tecidos com células em excesso; é o significado oposto ao da tuberculose – a patologia do excesso. O câncer é uma doença expansionista; invade os tecidos, estabelece colônias em paisagens hostis, buscando ‘refúgio’ num órgão e depois emigrando para outro. Vive desesperada, inventiva, feroz, territorial, astuciosa e defensivamente – por vezes como se nos ensinasse a sobreviver. Enfrentar o câncer é encontrar uma espécie alternativa, talvez mais adaptada à sobrevivência do que nós mesmos (…). O câncer é um invasor e colonizador fenomenalmente bem-sucedido porque explora as mesmas características que nos tornam bem-sucedidos como espécie ou organismo.”

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