Uma doença e seu nome

por Michel Laub

Outro trecho de O imperador de todos os males (ver post anterior):

“Até um monstro antigo precisa de um nome. Nomear uma doença é descrever certa condição de sofrimento – é um ato literário antes de ser um ato médico. Um paciente (…) é, de início, simplesmente um contador de histórias, um narrador de sofrimentos – um viajante que visitou o reino da doença. Para aliviar uma enfermidade é preciso, portanto, começar confessando sua história.

Os nomes de doenças antigas são histórias condensadas. O tifo, uma enfermidade tempestuosa, com febres erráticas, vaporosas, veio do grego tuphon, o pai dos ventos – palavra que deu origem ao moderno tufão. Influenza veio do latim influentia, porque os médicos imaginavam que as epidemias cíclicas de gripe eram influenciadas por estrelas e planetas, que giravam ora para perto, ora longe da Terra. Tuberculose veio do latim tuber, referindo-se a gânglios aumentados que lembravam pequenas hortaliças. A tuberculose linfática era chamada de scrofula, da palavra latina para ‘leitão’, evocando a imagem um tanto mórbida de uma cadeia de glândulas dispostas em linha como um grupo de leitões mamando.

Foi na época de Hipócrates, por volta de 400 a.C., que um termo para câncer apareceu pela primeira vez na literatura médica: karkinos, da palavra grega para ‘caranguejo’. O tumor, com os vasos sanguíneos inchados à sua volta, fez Hipócrates pensar num caranguejo enterrado na areia com as patas abertas em círculo. A imagem era peculiar (poucos cânceres, a rigor, se parecem com caranguejos), mas também vívida. Escritores que vieram depois, tanto médicos como pacientes, acrescentaram detalhes. Para alguns, a superfície endurecida e desbotada do tumor lembrava a dura carapaça do corpo do caranguejo. Outros sentiam o animal mexer-se sob a carne, como se a doença se espalhasse furtivamente pelo corpo. Para outros, ainda, a súbita pontada de dor produzida pela doença era como (…) as tenazes de um caranguejo.

Outra palavra grega que está ligada à história do câncer – onkos, usada para descrever tumores e de onde a oncologia tirou o seu nome – era o termo utilizado para denominar uma massa, uma carga ou mais comumente um fardo; o câncer era imaginado como um peso carregado pelo corpo. Na tragédia grega, a mesma palavra designava a máscara que com frequência era ‘carregada’ por um personagem para denotar a carga psíquica suportada por ele.”