Louis-Ferdinand Céline e a humanidade

por Michel Laub

Trechos de Viagem ao fim da noite, de 1932 (publicado no Brasil pela Companhia das Letras, 506 págs., com tradução de Rosa Freire D’Aguiar):

“No frio da Europa, sob as pudibundas neblinas do Norte, salvo nas matanças apenas suspeitamos da fervilhante crueldade de nossos irmãos, mas a podridão deles invade a superfície assim que os desperta a febre ignóbil dos trópicos. É então que rasgamos a fantasia para valer e que a canalhice triunfa e nos cobre inteiros. É a confissão biológica. Basta que o trabalho e o frio deixem de nos tolher, afrouxem um instante suas tenazes, e se pode perceber nos brancos aquilo que se descobre no alegre litoral quando o mar se retira: a verdade, charcos pesadamente fedorentos , os siris, a carniça, o cagalhão.”

“É assim que a gente deve se habituar a imaginar desde o primeiro contato os homens que vêm nos visitar, os compreendemos bem mais depressa depois disso, distinguimos de imediato em qualquer criatura sua realidade de gigantesco e ávido verme. (…) Nu em pelo, só resta em resumo diante de nós um pobre saco vazio pretensioso e cheio de si que se esforça em tartamudear inutilmente num gênero ou noutro. Nada resiste a essa prova (…). Sobram apenas as ideias, e as ideias nunca amedrontam. Com elas nada está perdido, tudo se ajeita. Ao passo que às vezes é difícil suportar o prestígio de um homem vestido. Ele guarda cheiros repugnantes e mistérios bem no meio de suas roupas.”

“Por mais que se faça escorregamos, recaímos no álcool que conserva os vivos e os mortos, não chegamos a nada. Está mais do que provado. E há tantos séculos que podemos olhar nossos animais nascerem, sofrerem e morrerem diante de nós sem nunca (…) [ter acontecido a eles] nada de extraordinário a não ser recomeçarem sem parar a mesma insípida falência no ponto onde tantos outros animais a deixaram (…). Vagas incessantes de seres inúteis vêm do fundo das eras morrer permanentemente diante de nós, e no entanto ficamos ali, a esperar coisas… nem mesmo para pensar a morte a gente presta.”

“A gente fica pensando como que no dia seguinte vai encontrar força suficiente para continuar a fazer o que fizemos na véspera e já há tanto tempo, onde é que encontraremos força para essas providências imbecis, esses mil projetos que não levam a nada, essas tentativas para sair da opressiva necessidade, tentativas que sempre abortam, e todas elas para que a gente se convença uma vez mais que o destino é invencível, que é preciso cair bem embaixo da muralha, toda noite, com a angústia desse dia seguinte, sempre mais precário, mais sórdido.”

“Temos de dizer sim a essa cuidadosa e lenta caricatura burilada (..). Aceitar o tempo, esse quadro de nós. Podemos então dizer que nos reconhecemos inteiramente (como uma nota de dinheiro estrangeira que hesitamos em pegar à primeira vista), que não nos enganamos de caminho, que de fato seguimos a verdadeira estrada (…), a estrada da podridão”

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