‘A guardiã do farol’, de Jeanette Winterson

por Michel Laub

Publicado na Folha de S.Paulo, 2009:

Jeanette Winterson é uma das mais conhecidas escritoras inglesas surgidas nos anos 1980. Seus livros foram traduzidos para vinte e oito países, entre os prêmios que ganhou está o E.M. Foster Award, e uma busca rápida na internet é capaz de listar elogios a ela de nomes como Gore Vidal e Muriel Spark. E, no entanto, a primeira dúvida que surge de A guardiã do farol (Record, 224 págs.) diz respeito a um fundamento básico da literatura: a prosa.

Logo no parágrafo inicial há uma frase que poderia resumi-la, quando a narradora, uma órfã criada pelo guarda do farol de um vilarejo na costa escocesa, fala do pai biológico, um marinheiro que não chegou a conhecer: “Um rombo no casco o deixou em terra o tempo suficiente para lançar âncora dentro de minha mãe”. Ou seja, o leitor já começa se perguntando se as imagens do texto – pensemos na “âncora”, ou nos “cardumes de bebês” que “competiram pela vida” e foram derrotados pela protagonista depois da concepção  – têm alguma força sugestiva ou são diluições na fronteira do kitsch.

Não é só um preciosismo de estilo: embora a narrativa seja em primeira pessoa, recurso que pode servir de desculpa para todo tipo de barbeiragem dramática, psicológica ou de linguagem – como se as incoerências e banalidades se devessem ao personagem, e não ao autor –, o efeito óbvio da prosa frouxa é que não acreditamos no que estamos lendo. O dilema é irônico pelo fato de que um dos assuntos do romance é justamente a permanência das histórias, seu poder de convencimento, a forma como suas verdades e mentiras influenciam a vida de alguém como a protagonista.

Para complicar ainda mais a crítica, o registro de Winterson também é oscilante, entre realismo, lenda e fábula, e nessa ambiguidade é difícil dizer se determinadas frases – “ninguém sabe o que acontece no fim da jornada”, “todo recomeço provoca um retorno”, “talvez todas as histórias mereçam ser ouvidas, mas nem todas merecem ser contadas” – trazem algum significado duplo, adequado a um certo tom mítico que fala de situações atemporais, arquetípicas, ou são apenas o que aparentam – lugares-comuns, solenidade vazia.

Infelizmente a segunda opção é mais provável, talvez porque em outros atributos, como o ritmo, os créditos da autora aos poucos vão se esgotando. A guardiã do farol tem tramas paralelas envolvendo o guarda, um pregador religioso e até figuras como Charles Darwin e Robert Louis Stevenson, mas toda vez que começamos a nos envolver com alguma delas o andamento é interrompido por uma digressão sobre o amor, o tempo ou mesmo por novos capítulos com nomes como A porta era o corpo dele, O mistério de Pew era o próprio mercúrio ou Foi nosso último dia como nós mesmos.

Se em alguns trechos a tentativa de lirismo consegue funcionar, e aí Winterson até justifica a celebração em torno de seu nome, a irregularidade geral impede que o romance vá muito além desses “pontos conhecidos na escuridão” – para ficarmos com outra de suas imagens não particularmente entusiasmantes.

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