‘Cães Heróis’, de Mario Bellatin

por Michel Laub

Quarta capa que escrevi para a edição brasileira do livro (Cosac Naify, 126 págs., tradução de Joca Wolff):

Um homem inválido mora com trinta pastores belga malinois prontos para “matar quem quer que seja com uma única mordida na jugular”. Seu enfermeiro-treinador, com quem tem uma relação pervertida de autoridade, consola-o com massagens na perna, enquanto a mãe e a irmã do protagonista se dedicam a um trabalho obscuro de classificação de sacolas plásticas vazias.

Estamos no universo por excelência de Mario Bellatin: na estranheza e intensidade deste romance breve, no qual as entrelinhas e espaços em branco complementam os blocos narrativos, o leitor é guiado pelo arsenal de recursos de um dos mais inclassificáveis escritores contemporâneos. Seus cortes abruptos, elipses e metáforas misteriosas, uma delas aproximando a atmosfera do quarto onde se passa boa parte da história com o “futuro da América Latina”, manejam a contraposição entre uma superfície de frieza e automatismo e uma nota subterrânea de emoção. Que carrega em si desespero, já que em cada linha sentimos a presença da dor, da violência e de uma falta geral de sentido, mas também certo humor que se alimenta da claustrofobia e da obsessão.