O que vale a pena lembrar e saber

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Não é demérito para um livro ser lembrado apenas por um pequeno trecho. Na maioria das vezes, não fica nem isso. Sou incapaz de resumir a trama, as características dos personagens ou qualquer cena de romances que li e seriam considerados importantes sob um ponto de vista elevado, acadêmico. Ao mesmo tempo, guardo bem a passagem de Tuareg (Alberto Vásquez-Figueroa) que descreve uma mina de sal. E de O ônus da prova (Scott Turow), em que um advogado usa um orelhão para contatar os clientes. E de A noite do oráculo (Paul Auster), cujo narrador elogia o caráter de sua mulher a partir de uma teoria sobre roubo de material de escritório.

Tuareg, O ônus da prova e A noite do oráculo fazem parte de uma categoria pessoal de clássico – mais ligada aos sentimentos do leitor que à história geral da ficção. A lembrança simples de episódios e cenas, porém, obviamente não é uma prova de gosto. Muitas vezes um romance nos acompanha com o registro difuso de sua atmosfera, do prazer de ter contato com a erudição do autor (Doutor fausto, Thomas Mann), o fôlego (Os sete pilares da sabedoria, T.E. Lawrence), a ousadia (Ulysses, James Joyce), qualidades mais difíceis de serem verbalizadas que um enredo ou diálogo.

Como tudo em literatura, o gosto se alimenta de um repertório. Essa memória – leituras anteriores, conhecimento vindo de outras fontes, experiência em geral – permite que seja mais fácil perceber a relevância, a originalidade e a força de um texto novo. Mas não convém misturar o que são etapas distintas de um processo que só existe como soma: a exemplo da inteligência, que é uma articulação nova de informações anteriores, o gosto é o que vem depois que a base é mexida e reinventada. Aí entra um fator imponderável e um tanto esotérico, uma espécie de talento de leitor: a diferença entre conhecer muitos assuntos e ser capaz de pensar sobre eles.

Num livro simpático lançado em 2011 – A arte e a ciência de memorizar tudo, Ed. Nova Fronteira –, Joshua Foer mostra que até o mecanismo fisiológico da memória depende de um contexto histórico e cultural. Antes da invenção da imprensa, que popularizou os livros e guardou a produção intelectual da humanidade de forma mais efetiva, qualquer poeta sabia de cor seus versos. Não porque tivesse um QI maior que a média de hoje, mas porque sem essa habilidade o trabalho se perderia: “A externalização da memória não apenas mudou o modo como as pessoas pensam, também levou a uma profunda alteração do que significa ser inteligente”, diz Foer. Referindo-se a tipos como um inglês que decorou duas mil palavras estrangeiras num dia, ou um americano que listava a sequência de vinte e sete maços de cartas estudados em uma hora, ele completa: “O que antes era a pedra angular da cultura ocidental é agora, na melhor das hipóteses, uma curiosidade”.

Com a internet e os mecanismos de busca, a era de ouro dos “halterofilistas da mente” sofreu uma segunda morte. A pergunta é se o mesmo ocorreu com o conceito já adaptado de inteligência, e se o valor da memória pode estar sendo relativizado num grau que afeta sua essência. Assim como aconteceu com números de telefones, que sabíamos de cor até poucos anos atrás, é possível que guardar informações sobre livros vire um exercício (ainda mais) inútil. E que o caráter didático de um romance, que nos faz ler tanto pelas razões de estilo quanto para aprender sobre um determinado assunto, torne-se (ainda mais) redundante quando tudo está à disposição no Google. E que o excesso de testemunhos e interpretações sobre esse romance, dos quais talvez não possamos fugir diante de redes sociais (ainda mais) invasivas, nos impeça de apreciá-lo por meio de sentimentos inaugurais – o que é uma das maravilhas da leitura como a conhecemos.

Seja como for, são hipóteses de superfície. A necessidade de dar sentido e registrar emocionalmente o conhecimento não acabará, e a ideia de verticalidade – conseguir furar a superfície infinita dos dados e vozes da cultura – independe da forma como ambos chegam até nós. É um processo que será sempre individual, o referido talento que faz um leitor saber, de forma menos ou mais consciente, a informação que deve ser guardada ou descartada. O que vale a pena saber ou ignorar. Algo que Borges antecipa numa frase de Funes, o memorioso, conto clássico sobre o tema publicado em 1944: pensar também é – e talvez seja antes de tudo, e cada vez mais – esquecer.

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