Vila-Matas, ‘O mal de Montano’

por Michel Laub

(Publicado na Folha de S.Paulo, 2005):

A ideia da literatura como doença não é exatamente novidade na ficção. Personagens como Dom Quixote e Ema Bovary têm seus destinos arruinados por enxergarem a vida como uma extensão idealizada do que leram: aventuras de cavalaria, no primeiro caso, e histórias românticas, no segundo. A diferença do protagonista de O Mal de Montano (Cosac Naify, 328 págs.), romance que deu ao catalão Enrique Vila-Matas os prêmios Heralde e Médicis, é a consciência do próprio desvio: crítico que inicia a trama numa viagem de visita ao filho, Rosário Girondo se angustia ao perceber que seus diálogos são citações, seus atos imitam passagens de clássicos e pessoas ao seu redor lembram criaturas como Hamlet e o Conde Drácula. A “intoxicação literária” pauta seu relacionamento com a mulher, Rosa, e o faz ir a lugares como Chile, Açores e Budapeste.

Impossível não ver no enredo um complemento de Bartleby e Companhia, a obra-prima de Vila-Matas sobre escritores que desistiram do ofício. Se esta era uma história sobre a “elegância de se calar”, como o autor já disse em entrevistas, O Mal de Montano também tem como ponto de partida o silêncio. Não só porque traz um personagem em crise por ter publicado um livro semelhante a Bartleby, mas porque o tormento de Girondo é causado por um excesso de vozes. Todas as convenções já foram usadas, todas as fórmulas já foram descobertas, todas as rupturas já foram promovidas no eterno presente da ficção universal. Quem as sussurra são outros escritores, claro, que em sua época viveram os dilemas de uma atividade desde sempre tirânica e ingrata. Por que sacrificar a vida em nome dela? Que sentido ainda faz praticá-la hoje?

Como todo artista que de alguma maneira bebeu nas fontes do pós-modernismo, Vila-Matas prefere a ironia das perguntas à solenidade das respostas. Sua vítima predileta são as supostas leis de certa ficção contemporânea. Brincando com os cacoetes estilísticos do romance, do ensaio, do diário, da enciclopédia e da autobiografia, O Mal de Montano trata de destruí-las uma a uma: os personagens mentem, os fatos se contradizem, as certezas do leitor acabam se revelando falsas. Rosário Girondo não fala apenas de como é difícil ser original: ele demonstra na prática, e a sua narrativa é o maior exemplo, como se tornou fácil criar ilusões com a linguagem.

Contraditoriamente, à medida que o romance se livra do andamento algo maneirista de seu início, essas ilusões ganham encantamento autônomo. Aí está o talento de Vila-Matas: com humor, transformar o que seria um mero estudo sobre os limites da criação artística numa prova de suas possibilidades ainda vivas. Como o próprio Girondo descobre, respirar literatura pode ser um ato de resistência em um mundo cada vez menos literário. Ato que traz dentro de si a cura para quem escreve sob o espectro do conformismo.

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