Guerra, literatura e horror

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Dois livros lançados há pouco no Brasil permitem retomar uma velha discussão artística. O primeiro é Guerra aérea e literatura (Companhia das Letras, 131 págs.), ensaio em que W.G. Sebald mostra como os escritores alemães falharam ao descrever os bombardeios aliados que derrotaram os nazistas. No segundo, o romance Beatriz e Virgílio (Nova Fronteira, 195 págs.), Yann Martel se propõe a falar do Holocausto por meio não do testemunho ou do realismo, o que muita gente já fez, e sim da alegoria, expediente um pouco mais raro.

A pergunta que surge da leitura de ambos é: num mundo tão cheio de histórias, boa parte feita para chocar, como fazer o leitor experimentar o horror por meio da estética? Sebald aponta o melodrama, a literatice e o misticismo característicos dos registros da destruição de cidades como Berlim e Dresden. Havia razões morais para a retórica escapista — entre elas, o temor de que uma condenação dos ataques fosse confundida com nostalgia do Terceiro Reich —, mas do ponto de vista literário sobrou a constatação de um paradoxo também antigo: para dizer a verdade, um texto precisa mentir. Ou seja, é preciso mediar linguagem e fabulação, usando nuances de ritmo e outros truques técnicos, para fazer o relato parecer o mais acurado e real possível. Um escritor talentoso que nunca esteve em Dresden tem mais chances de evocar o inferno daqueles dias do que alguém que viu tudo, mas não tem vocação para o ofício.

“Mediar linguagem e fabulação” não significa, claro, tornar apenas direta ou brutal a reprodução dos fatos. Martel opta pelo caminho oposto do que talvez apregoe Sebald, e nos melhores momentos de seu romance — a segunda metade já é um tanto convencional — consegue sugerir algo muito sombrio por meio de passagens de superfície leve e solar. Exemplo é o diálogo entre um macaco e uma mula [1], ambos personagens de uma peça de teatro lida pelo protagonista, que gira em torno da descrição de uma pera. O leitor sabe que há um subtexto remetendo a um massacre, mas se angustia ao não perceber como isso se encaixa nas falas. O que dá ao livro tal atmosfera não são os fatos em si, já que todo mundo sabe o que foi o Holocausto e suas consequências na realidade, mas a forma como Martel manipula uma espécie de descoberta ficcional do tema. Num ensaio sobre os efeitos do onze de setembro sobre a arte, Teixeira Coelho vê na ideia estética do mal a sensação de que elementos de uma obra “não deveriam estar ali, mas estão”. É o efeito que Beatriz e Virgílio às vezes causa, apenas trocando-se a definição de mal pela de um certo tipo de horror.

Muita gente resiste ao argumento de que a força de uma obra de arte possa estar além dela mesma — nas circunstâncias biográficas e históricas, por exemplo, que dão autoridade ao autor ou gravidade ao tema. Mas é inegável que nossa opinião depende bastante do que sabemos para além dos limites meramente estéticos. Fotos como as de Jonathan Torgovnik seriam apenas fotos de crianças ruandesas se, informação trazida pelas legendas, suas mães não tivessem sido estupradas durante o genocídio de 1994. Da mesma forma, talvez fosse perturbador ouvir Primo Levi falando alemão, mesmo que suas palavras fossem as mais simples e doces, quando é sabido que ele aprendeu a língua em Auschwitz. Beatriz e Virgílio opera com esse contraste entre forma e circunstância, dados que estão dentro e fora do romance, para alcançar um impacto que nem sempre é ligado ao horror direto do que é dito. Algo que aparece em pelo menos um momento de Guerra aérea: no espanto de Sebald, compartilhado com o leitor, ao receber uma carta discorrendo não sobre os fatos contados em seu livro, incluindo mães que vagavam pelos escombros dos incêndios carregando o cadáver dos filhos em malas, mas sobre a “anteposição do predicado, que ele julgava o principal sintoma do alemão simplório”[2]. Quantos trechos da literatura universal, de forma literal ou alegórica, conseguem ser tão chocantes como esse?

NOTAS

[1] Por coincidência ou não, tanto Guerra aérea quanto Beatriz e Virgílio usam, em algum momento, exemplos do mundo animal. Sebald compara um relato do bombardeio do zoológico de Berlim, que seria o mais simples e pungente sobre a destruição da cidade, com textos frouxos e cheios de clichês — “labaredas ao céu”, “o inferno diante dos nossos olhos” — sobre o drama humano no período. Uma analogia do próprio livro talvez possa explicar o fenômeno: “Não se espera que uma colônia de insetos fique paralisada pelo luto diante da destruição da colônia vizinha. Da natureza humana, no entanto, espera-se certa dose de empatia”. Empatia que, até provem o contrário, é um dos elementos da literatura.

[2] Caso semelhante ao de uma carta na revista Piauí de julho, comentando as memórias de Persio Arida publicadas no número anterior. Talvez se referindo à prisão e tortura do ex-presidente do Banco Central, ou à morte do seu pai, ou ao sentimento de inadequação e até vergonha que ele carregou por muitos anos em função do que sofreu, tudo misturado num texto comovente por sua honestidade e coragem, o leitor em questão ensina: “Tucano não sabe onde fica o crematório da Vila Alpina! Não é Zona Norte, é Leste (…). Esses tucanos não sabem o que é periferia.”

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