‘No país dos homens’, de Hisham Matar

por Michel Laub

(Publicado na Folha de S.Paulo, 2007):

Histórias contadas por crianças em meio à guerra ou à opressão política costumam render por vários motivos. O principal é a contraposição entre pureza e brutalidade, recurso em geral obtido por meio de uma voz calculadamente ingênua, cujas lacunas acentuam um horror nunca explícito e, por isso mesmo, ainda mais presente. O equilíbrio não é sempre fácil, e é no caminho para consegui-lo que estão os méritos e defeitos de No País dos Homens (Companhia das Letras, 264 págs.), romance de estréia do americano de descendência líbia Hisham Matar.

O livro é narrado por Sulemein, um garoto de 9 anos, e o pano de fundo é a ditadura de Muammar Gaddafi. No verão de 1979, o pai do protagonista se envolve com um grupo de intelectuais de oposição e acaba preso. Com ingredientes autobiográficos, já que o pai de Hisham Matar passou por experiência semelhante, No país dos homens acompanha o processo de amadurecimento de Sulemein, dividido entre brincadeiras típicas da idade e sentimentos conflituosos relativos à tragédia familiar.

O principal problema da trama é que esse amadurecimento não se dá de modo contínuo e crescente, como seria praxe num romance de formação. A voz de Sulemein oscila demais entre uma extrema ingenuidade e uma consciência às vezes exagerada. Em certas passagens ele demonstra não entender, por exemplo, o porquê de os amigos de seu pai estarem sendo perseguidos; em outras, reproduz com exatidão diálogos em que adultos explicam em detalhes a situação da Líbia. Como o romance é narrado do futuro, como uma memória distante de infância, é difícil acreditar que o personagem lembrasse de todas aquelas palavras, com a conseqüente profundidade de seus raciocínios, e ao mesmo tempo não soubesse na época o que elas significavam.

À medida que a história avança, porém, fica claro que o propósito do autor não é apenas a denúncia da repressão ditatorial sob o filtro da doçura infantil. Ao tratar da relação com a mãe problemática, com o melhor amigo, com um mendigo da vizinhança e com um agente fantasmagórico do governo, a fala de Suleiman deixa de ser a de uma vítima passiva, que apenas assistiu a eventos terríveis, e se torna o registro de um indivíduo em transformação, rumo a algo que não sabe bem o que é, processo muito mais ambíguo e rico do que sugere a mera alegoria política.

Ou seja, Hisham Matar escapa do modelo a que seu romance parece se filiar – e no qual teria certa debilidade, por causa do problema de tom – para dar a ele uma dimensão mais original, para além do espaço e do tempo em que está situado. O horror de No País dos Homens não é só o da Líbia em 1979, mas também o que cada um é capaz de infligir aos outros e a si mesmo ao se tornar adulto. Para Sulemein, isso significa deixar de acreditar que “o inocente não tem motivo para ter medo”. Até porque ninguém é inocente, e todos agora parecem ter medo disso.