Amizade, mentiras, etc.

por Michel Laub

(Publicado no blog da Companhia das Letras):

Ao contrário do que diz o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros de seus colegas. Frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe fale algo, para que não precise experimentar a sensação corrosiva de vergonha ao fazer um elogio hipócrita no bar. Claro que esse ainda é o melhor dos cenários — pior é mandar um email e deixar a mentira registrada para sempre no éter virtual, quando não na quarta capa do livro seguinte do amigo.

Conhecer o autor pessoalmente pode ser uma vantagem ou um problema. Vantagem porque é impossível separar o afeto que se tem pela pessoa da apreciação daquilo que ela escreve. Afinal, livros quase sempre são uma extensão do que somos: o encadeamento do texto imita o jeito como se pensa ou fala, as ideias são análogas às de quem as expõe, a prosa é indissociável de qualidades pessoais como o ouvido, o carisma e o humor. Por outro lado, estamos acostumados aos defeitos e fraquezas dos nossos amigos, e é difícil não notar as eventuais tentativas deles de parecerem mais inteligentes e charmosos do que são.

A questão se estende à boa ou má vontade que temos com um texto, o que muitas vezes é decisivo no veredicto sobre ele. Já ouvi um escritor dizer que um colega seria incapaz de escrever sobre o mundo contemporâneo porque tem mau gosto musical ou algo assim. Por trás do exagero ou chiste, é o tipo de avaliação que poderíamos fazer sobre alguém com pouca experiência, ou cuja conversa é enfadonha e banal. Há grandes autores que em sua vida eram a própria encarnação da banalidade, mas com quem lidamos no dia-a-dia a pergunta nunca deixa de ser: o que este cara tem para dizer que valha o meu tempo?

A história da literatura é cheia de avaliações curiosas de escritores em relação aos pares, próximos ou não. Muitas são causadas por inveja e mesquinharia — no Brasil não tem nada disso, sabemos —, mas também é fato que tal proximidade distorce o juízo. Para um lado e para o outro: gosto de encontrar piadas internas nos livros dos meus amigos, e digamos que haja dez delas num romance de 100 páginas. Apesar dos dez momentos de humor numa história bastante curta, o que sobe consideravelmente a sua cotação, eu poderia garantir por aí que se trata de uma história engraçada? Dá para ampliar o exemplo óbvio da piada interna e dizer o mesmo das referências — geográficas, culturais, sentimentais — que, sendo as mesmas para mim e para o autor, o que inclusive bagunça o jogo sempre divertido entre ficção e biografia, fazem com que minha relação com seu trabalho nunca seja a de um leitor comum.

No fundo, é uma contradição: alguns dos meus melhores amigos são ficcionistas, e muito da afinidade que temos vem justamente disso — porque enfrentamos problemas semelhantes, porque temos hábitos parecidos, porque em vários aspectos nossa trajetória teve e tem muitos pontos em comum. Ao mesmo tempo, o objeto e resultado dessa afinidade nunca será 100% visível. É preciso que seja, já que toda apreciação estética é necessariamente subjetiva? Do ponto de vista da moral pública, vamos chamar assim, com muitos escritores exercendo a crítica e fazendo resenhas dos colegas, seria melhor que sim. Mas do ponto de vista da amizade, talvez seja o contrário: melhor é acreditar, o que não é nada difícil dependendo do caso, que seus amigos são brilhantes e foi sorte sua ser aceito como igual por eles.

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