Stálin, um fuzilamento e uma lição de matemática

por Michel Laub

Outro trecho de Stálin: a corte do czar vermelho (ver post anterior):

“Em abril de 1937, a dra. Bronka Poskrióbicheva, a linda esposa de 27 anos do chefe de gabinete, telefonou a Stálin e pediu para encontrar-se com ele sozinha em Kuntsevo, aonde foi com seu melhor vestido (…). O marido não sabia de nada (…). Ela foi pedir a libertação de seu irmão Metálikov, o medico do Kremlin, que tinha um parentesco indireto com Trotski por meio de sua esposa (…). Stálin odiava as mlheres que imploravam por parentes, ainda que uma das tragédias da vida soviética de então fosse que as mulheres imploravam aos potentados pela vida de seus entes queridos, oferecendo tudo o que podiam, inclusive o corpo. A missão de Bronca fracassou (…) e ela ficou com medo de ser posta no mesmo saco dos trotskistas.

Antes de sua promoção para Moscou, Béria havia apalpado Bronka em Kuntsevo e ela lhe dera um tapa. ‘Não esquecerei isso’, disse ele. Mas Bronka não desistiu. A 27 de abril de 1939, telefonou a Béria e perguntou se poderia vê-lo para discutir o caso de seu irmão. Nunca mais foi vista.

Poskríobichev esperou até a meia-noite, então telefonou para a casa de Béria, que revelou que ela estava sob custódia, mas não discutiria o assunto. Pela manhã, sem ter dormido nada, Poskríobichev queixou-se a Stálin, que disse: ‘Não depende de mim. Não posso fazer nada. Somente o NKVD pode resolver’ (…). Stálin telefonou para Béria, que o lembrou das conexões trotskistas de Bronka. Os três se encontraram, provavelmente por volta de meia-noite de 3 de maio, quando Béria apresentou uma confissão que implicava Bronka. Poskríobichev implorou a Stálin para soltá-la, usando o argumento menos bolchevique (…): ‘O que vou fazer com minhas filhas? O que acontecerá com elas?’ (…)

‘Não se preocupe, acharemos outra mulher para você’, teria supostamente respondido Stálin. Isso era típico (…) do homem que ameaçara Krupskaia de que, se ela não obedecesse ao Partido, eles nomeariam outra pessoa para viúva de Lênin. Pelos padrões da época, Poskríobichev fez um estardalhaço, mas não podia fazer mais. Dois anos depois, quando os alemães se aproximavam de Moscou, Bronka foi fuzilada, aos 31 anos.

Disseram a sua filha Natália que ela tivera morte natural. Poskríobichev criou as filhas sozinho, com dedicação amorosa. Mantinha fotografias de Bronka por toda a casa. Quando Natália apontava para uma delas e dizia ‘mamãe’, seus olhos se enchiam de lágrimas e ele saía correndo da sala (…) Natália só [descobriu] que sua mãe foi fuzilada na escola, quando a filha do cantor Koslovski lhe contou. Ela soluçou no banheiro. Poskríobichev casou de novo.

A destruição de Bronka não afetou a relação dele com Stálin ou Béria: o Partido era justo. Stálin assumiu um interesse solícito pela filha de Bronka: ‘Como está Natacha?’, perguntava com frequência ao chefe de gabinete. ‘Está gorducha e doce?’ Anos depois, quando não estava conseguindo fazer a lição de casa, ela telefonou ao pai para pedir ajuda. Outra pessoa atendeu.

‘Posso falar com meu pai?’, perguntou ela.

‘Ele não está’, respondeu Stálin. ‘Qual é o problema?’ E ele resolveu as questões de matemática para ela.”