Seis propostas para os quadrinhos – por Cardoso

por Michel Laub

(Autor de Cavernas e concubinas e da HQ Supercomunismoparacaralho, em parceria com Alan Sieber e sem previsão de lançamento):

1. Mais humor, por favor – Nada contra quadrinhos sérios, densos, cheios de tramoias psicológicas e profundas discussões sobre a condição humana, mas só porque é adulto não quer dizer que precise ser SEMPRE sisudo. Notem que me refiro especificamente a graphic novels aqui: sei que temos uma forte tradição de quadrinhos de humor, com uma presença bastante forte na internet. Todavia, boa parte dessa produção se resume a tirinhas e histórias curtas, de menos de 20 páginas.

2. Pense localmente, haja globalmente Quadrinhos situados em cidades fictícias como Gotham, Patópolis, Pequenópolis e a Nova York são muito legais, mas bem que podiam começar a incluir uns lugares como Porto Alegre, Teófilo Otoni ou Feira de Santana como cenário. E não só en passant, mas radicalmente. Personagens praticando o encontro sensual no Masp, se perdendo dos amigos na Cinelândia, atacados por um tubarão na praia da Boa Viagem.

3. Cruza de gêneros sem limites – Quadrinhos sobre futebol, MMA e atletismo. Quadrinhos sobre cerveja artesanal, bistrôs perobos afrancesados e descrevendo receitas complexas em detalhes. Quadrinhos sobre videogame, internet e celulares. Quadrinhos poéticos, cinematográficos, com trilha sonora. Quadrinhos sobre quadrinhos, finanças, tendências de moda e comportamento. Não necessariamente tudo junto. Mas eventualmente também.

4. Hipocondrinhos – Salvo ledo engano, ninguém explorou ainda a dicotomia saúde/doença de forma realmente marcante nas histórias em quadrinhos. Muito se falou de abuso de substâncias controladas e medicamentos, e há muita mutilação, machucadura e morte, mas muito pouco sobre hérnia de hiato, bico de papagaio e doença celíaca (isso pra não falar em hipotireoidismo, TOC, depressão e HPV). Uma exceção honrosa é a ótima Mom’s Cancer, de Brian Fies.

5. Quadrinhos de pendurar na parede Que tenham boas histórias, que tenham bons personagens, mas também que sejam esteticamente aniquiladores e digam muito mais coisas no traço, nas cores e na disposição dos painéis do que nos balões de diálogo e caixas de texto. Se a história não fosse tão modorrenta, Jimmy Corrigan, de Chris Ware, poderia ser o exemplo perfeito.

6. Fantasia, ilusão e escapismo Também conhecido como “vamos dar um tempo nos quadrinhos autobiográficos”. Muita coisa legal já saiu, mas muita coisa ruim também. Talvez seja hora de voltar a inventar histórias, situações e personagens (muito embora todos saibam que os melhores personagens são sempre baseados – pelo menos em parte – em pessoas reais).

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